OBSERVAÇÃO TURÍSTICA DE CETÁCEOS NOS AÇORES
Por: Rui Prieto e Mónica
Silva

“Observação de cetáceos é
uma actividade crescente, que pode ser benéfica para a natureza.”
Foto: R Prieto © ImagDOP
Nos últimos tempos tem havido artigos para todos os
gostos na imprensa, tanto nacional como internacional, sobre a observação
turística de cetáceos nos Açores, alguns quase publicitários, outros de pessoas
positivamente impressionadas, outros tantos de pessoas descontentes e uns
poucos à beira do fanatismo ecológico.
Numa carta dirigida recentemente a uma revista
portuguesa por um casal de turistas francês1 pode-se ler o
comentário “(...) esta situação [a falta de cuidado nas manobras dos barcos na
proximidade dos cetáceos] terá como consequência, entre outras, o afastamento
dos cetáceos das águas Açoreanas (...)”.
O problema de comentários extremos como este é que,
embora feitos com boas intenções, são-no com pouca ou nenhuma fundamentação
científica, causando mais confusão em vez de contribuírem para a solução dos
problemas existentes.
A observação turística de cetáceos constitui
qualquer actividade turística que dá ao público a oportunidade de observar
cetáceos no seu habitat natural2. Embora em Portugal tenha uma
história recente, esta actividade comercial nasceu em 1955 ao longo da costa da
Califórnia3.

“O whale-watching nos
Açores tem uma boa lei e um calcanhar de Aquiles: a falta de fiscalização.”
Foto: F Cardigos © ImagDOP
Durante as primeiras décadas a actividade evoluiu
lentamente em todo o mundo, mas na última, a sua importância económica cresceu
consideravelmente. Em 1991 esta actividade existia em apenas 31 países mas em
1998 este número tinha já alcançado os 87 países e territórios à
volta do Mundo, incluindo a Antártida4. A actividade em 1991 envolvia
cerca de 4.047.000 clientes e gerava
directamente cerca de 77.milhões de dólares (aproximadamente 16,4
milhões de contos) a nível global, e em 1998 estes valores passaram
respectivamente para 9.020.000 clientes e 300 milhões de dólares 4 (aproximadamente
64 milhões de contos).
Embora o florescimento e crescimento desta
actividade sejam positivos, especialmente para certo tipo de comunidades
costeiras em declínio, e se tenha transformado em alguns casos no motor de
desenvolvimento local, tem suscitado alguma preocupação relativamente aos
efeitos adversos que a sua expansão desregrada poderá ter sobre as populações
de cetáceos visadas.
Embora não tenham sido ainda detectados impactes a
longo termo em nenhuma das poucas populações de cetáceos que têm sido objecto
de estudo por tempo suficiente, ao longo dos anos tem-se desenvolvido um
sentimento por parte de investigadores e gestores de que se deve adoptar um
princípio preventivo na gestão desta actividade e de actividades semelhantes de
eco-turismo, tentando fazer face a potenciais problemas de conservação. Por
outras palavras, na ausência de certezas sobre os efeitos do distúrbio causado
pela presença humana, é preferível minimizá-lo tanto quanto possível, mesmo que
isso implique alguma diminuição da rentabilidade da actividade, ou um
crescimento mais lento.
Os impactes podem ser de diversa ordem. Os impactes directos normalmente têm consequências no comportamento dos animais ou grupos de animais e são relativamente fáceis de identificar e quantificar. Os impactes indirectos tem consequências ecológicas ou populacionais, e são muito mais difíceis de identificar.
Estes impactes podem também ser divididos em impactes imediatos e a curto prazo, relativamente fáceis de identificar, e impactes a longo prazo, normalmente difíceis de identificar.
Os impactes imediatos e a curto prazo envolvem normalmente reacções dos animais à presença de embarcações, aeronaves ou pessoas na água e traduzem-se por movimentos evasivos ou de aproximação, comportamentos agressivos, acompanhamento da embarcação, mergulhos, e outras reacções do género. Este tipo de reacções pode interferir com a alimentação, repouso e actividades sociais, causando o que é conhecido por “stress a curto prazo”.
Uma vez que as reacções dos animais
são identificáveis e podem ser comparadas com o seu comportamento na ausência
de interferência humana, torna-se relativamente fácil estudar estes impactes a
curto prazo. Para tal desenvolvem-se técnicas para quantificar determinados
comportamentos dos cetáceos, principalmente comportamentos identificados com
reacções naturais a situações de tensão, e correlacionar a sua ocorrência com a
presença de interferência humana. Por serem reacções a estímulos (presença de
embarcações, muito ruído na água, etc.) os impactes a curto prazo têm
normalmente uma duração curta. Caso estes impactes sejam continuados, a
interferência com actividades normais dos animais pode ter efeitos a longo
prazo, quer ao nível dos indivíduos como ao nível populacional. Estes efeitos a
longo prazo não são um resultado obrigatório dos impactes a curto prazo, mas
num plano teórico essa possibilidade existe.
A razão pela qual os efeitos a longo
prazo são muito mais difíceis de identificar, é serem mais subtis, necessitarem
de trabalhos de investigação de grande duração e um conhecimento aprofundado da
biologia e ecologia das populações estudadas, e em grande parte por não
compreendermos completamente o significado destas alterações comportamentais
para os indivíduos, grupos e populações.
Os impactes a longo prazo podem levar a alterações de padrões de distribuição, de migração e comportamentais, alterações do regime alimentar e diminuição do sucesso na captura de presas e estes factores combinados poderão ter consequências nos efectivos populacionais, através de alterações do sucesso reprodutor e das taxas de mortalidade.
Se vistos isoladamente, estes possíveis problemas podem levar muitas pessoas a pensar que o melhor é não deixar que a actividade se desenvolva pois poderá acarretar grandes perigos para a conservação das espécies alvo. Mas devemos lembrar-nos que estas análises foram feitas para que possamos saber com que problemas nos poderemos eventualmente deparar, de forma a podermos evitá-los. Se encarados seriamente, na maior parte dos casos o impacte da presença humana pode ser minimizado, de forma a não colocar em causa a conservação das populações em questão.
Poderá haver ocasiões raras em que a minimização do distúrbio implicará
a interrupção temporária ou definitiva da actividade mas, de uma forma geral,
deve ser aplicado bom senso para permitir que o desenvolvimento económico possa
ser aliado à conservação das espécies alvo.
Mesmo em situações aparentemente extremas, os
impactes podem ser menores do que o que seria de esperar. Ao longo da fronteira
Atlântica do Canadá com os EUA há uma actividade de observação de orcas (Orcinus
orca) sobre uma pequena população residente. Em 1997 mais de 80 barcos
comerciais operavam na área e, a estes, somavam-se ainda inúmeros barcos
particulares de ambos os países. Em média a cada passagem por um ponto de
monitorização em terra havia 25 barcos com as baleias.
Embora o estudo então realizado tenha demonstrado
que a maioria dos inquiridos pensavam que os barcos tinham um impacte negativo
sobre os animais, um estudo paralelo não foi capaz de documentar nenhum impacte
dos barcos sobre o comportamento dos animais a curto prazo, assim como também
não foi notado nenhum impacte a longo prazo5.
Nem todos os
impactes são negativos. Para além do indiscutível benefício económico, mesmo a nível de protecção dos recursos a
actividade de observação turística de cetáceos é um óptimo veículo para a difusão de
conceitos de conservação e gestão ambiental, podendo ser utilizado para a
protecção tanto das espécies envolvidas, como de outras espécies da região e
dos habitats envolventes. A própria investigação beneficia com a actividade,
uma vez que o esforço envolvido na observação dos animais aumenta consideravelmente
e pode ser orientado de forma a acelerar o processo de aquisição de informação
sobre os cetáceos.

“Em terra e no mar, os investigadores
avaliam o impacte que a actividade turística tem sobre os cetáceos.”
Foto: AA Silva © ImagDOP
Uma vez que os animais são o o recurso
de que dependem as empresas, estas têm todo o interesse em protegê-los,
salvaguardando, assim, os seus interesses. Esta forma de protecção directa pode
ser muito importante em áreas onde subsista caça ilegal de cetáceos e de outras
espécies protegidas.
Se estes princípios forem compreendidos pelas pessoas envolvidas na actividade, passa-se da exploração simples de um recurso, sem benefícios para o mesmo, a uma situação em que a sua exploração pode melhorar a própria conservação do recurso.
Nos Açores, a observação turística de cetáceos foi iniciada como actividade económica em 1992, com uma carteira de cerca de 100 clientes6. Desde então a actividade teve um crescimento constante e em 2000 havia cerca de 15 operadores, envolvendo perto de 10.000 clientes.Como em outras regiões do mundo, a actividade tem vindo a contribuir para o desenvolvimento da economia das comunidades locais, principalmente das ilhas do Faial e Pico, onde se concentram a maior parte das empresas. No caso destas ilhas acresce ainda a importância social e cultural, pois estas comunidades estiveram durante muito tempo ligadas à baleação de cachalotes. Assim, a observação turística de cetáceos veio preencher uma lacuna deixada pela extinção daquela actividade. Contudo, o rápido crescimento da actividade suscitou alguma preocupação relativamente ao seu possível impacte nos cetáceos e em 1996 foi iniciado um projecto conjunto entre o Governo Regional e a Universidade dos Açores cujo primeiro objectivo foi criar legislação específica para a observação turística de cetáceos.
Deste trabalho surgiu um Decreto Legislativo Regional que regulamenta todas as actividades de observação de cetáceos, comercial, científica e recreativa, e que foi publicado em 1999.
Entretanto, novos estudos foram iniciados
para tentar quantificar os impactes da actividade nos cetáceos e estimar a
capacidade que estas populações podem suportar, sobretudo nas áreas em que a
pressão turística é maior. Estes estudos estão integrados nos projectos MARÉ –
Gestão Integrada de Zonas Costeiras e Marinhas dos Açores (financiamento
europeu B4-3200/98/509) e Projecto de acompanhamento da actividade de
“Whale-Watching” (financiamento da Secretaria Regional da Economia), em curso
no Departameto de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores.
Um trabalho integrado numa tese de licenciatura efectuado no âmbito destes projectos, acerca do efeito das embarcações no comportamento do cachalote (Physeter macrocephalus), espécie alvo da actividade nos Açores, não detectou efeitos evidentes de perturbação no comportamento destes animais. No entanto, a autora adverte para a necessidade de se utilizar estas conclusões com cautela, devido a limitações nas técnicas de estudo utilizadas8.
Actualmente, e como acontece em outras actividades no nosso país, um dos maiores problemas na gestão da a observação turística de cetáceos nos Açores reside na deficiente fiscalização. Este factor, combinado com uma forte concorrência entre operadores, diferentes níveis de sensibilidade ambiental e com alguma falta de formação específica de alguns dos profissionais, fazem com que a exploração da actividade ainda esteja longe do ideal e que ocorram muitas situações desagradáveis à vista de alguns clientes. É necessário que a actividade não derrape para níveis irregulares para o bem de todos os envolvidos.
Identificados os principais problemas, a situação nos Açores está longe de ser alarmante, e não se antevê que o impacte causado seja suficiente para colocar em causa a conservação dos animais num futuro próximo. Mas esta situação pode e deve, sem dúvida, ser melhorada. Para tal é imprescindível apostar na formação e sensibilização tanto dos operadores como dos potenciais clientes da actividade. Os operadores devem ser incentivados a dar mais e melhor informação sobre ecologia e conservação dos cetáceos e do ambiente das ilhas aos seus clientes. Em inquéritos aos clientes, este foi um dos aspectos destacados na apreciação positiva das empresas que já o praticam9. Em paralelo é necessário investir nos meios necessários à fiscalização e acompanhar o desenvolvimento da actividade do ponto de vista científico. Por fim, a legislação deve ser adaptada às alterações consequentes das necessidades de conservação das populações de cetáceos, da evolução da actividade e desenvolvimento dos meios científicos.
Só assim se poderá aliar o desenvolvimento económico com a conservação ambiental, de modo a atingir o desenvolvimento sustentado que se pretende nas sociedades modernas.
Rui Prieto – Biólogo do Departamento de Oceanografia e
Pescas da Universidade dos Açores integrado no Grupo Estudos em Cetáceos.
Consultor científico da Rede de Arrojamentos de Cetáceos dos Açores. É
licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve.
Mónica Silva – Licenciada em Recursos Faunísticos e
Ambiente pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. É técnica
superior do ICN (Instituto para a Conservação da Natureza) especialista em
cetáceos. Encontra-se em comissão de serviço no Departamento de Oceanografia e
Pescas da Universidade dos Açores inserida no Grupo de Estudos em Cetáceos.