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Ecologia alimentar de aves marinhas
O uso de aves marinhas como indicadores da abundância e variabilidade
dos stocks de presas marinhas nos ecossistemas costeiros e oceânicos tem
sobressaído em recentes programas interdisciplinares de investigação oceanográfica.
De facto, a medição da disponibilidade de presas por derivação da alimentação
das aves marinhas fornece índices naturais que complementam os dados das
pescas, permitem avaliar presas em regiões inacessíveis aos estudos tradicionais
e podem ser incorporados em modelos avaliação de stocks (Montevecchi 1993).
As comparações multi-específicas de aves marinhas com diferentes relações
tróficas (por exemplo, especialização pelágica versus organismos pelágicos)
e áreas distintas de prospecção de alimento (costeiras versus oceânicas)
realçam o valor das indicações ornitológicas sobrre os stocks de presas
e estrutura das cadeias tróficas marinhas.
Os dados sobre as dietas das aves marinhas recentemente obtidos no Departamento
indicam uma especialização de várias aves marinhas na exploração de processos
oceânicos ainda não identificados, assim como variações sazonais marcadas
da abundância de organismos-presas. Por exemplo: peixes mesopelágicos
ocorrem em quantidades significativas na dieta de aves marinhas que se
alimentam exclusivamente durante o dia tais, como garajaus e gaivotas;
cefalópodes mesopelágicos são capturados por cagarros; e fortes variações
sazonais são evidenciadas pelas frequências de ocorrência de cefalópodes
e diversas espécies de peixes na dieta de cagarros. É sabido que as condições
oceanográficas, nomeadamente, aspectos físicos como ondas internas, eddies
e frentes térmicas, têm um papel determinante na estruturação dos habitats
marinhos de alimentação das aves marinhas, já que influenciam a distribuição
e disponibilidade de presas (Haney 1986, 1987; Hunt & Schneider 1987).
Neste contexto, o comportamento do cagarro na selecção de condições oceanográficas
específicas relacionadas com situações de upwelling, frequentemente muito
localizadas (Haney 1986, 1987; Haney & McGillivary 1985) e o facto de,
presentemente, ser ainda o melhor indicador da presença de atum usado
pelos pescadores açoreanos, sugerem que uma atenção especial deve ser
dada ao estudo das inter-relações entre o cagarro e as condições oceanográficas.
Em conclusão, o conhecimento corrente da abundância dos stocks de presas
nos Açores e dos processos biofísicos que controlam a sua disponibilidade
são escassos. A investigação futura deste assunto no DOP/UAç irá incidir
no desenvolvimento e aplicação de métodos de avaliação de stocks de presas
marinhas utilizando aves marinhas como amostradores biológicos e contribuirá
para a definição de uma situação de referência para a monitorização futura
da mudanças no ambiente marinho. Uma vez desenvolvida, tal metodologia
poderá ter uma aplicação geral no Atlântico Português. Os objectivos específicos
da investigação sobre este assunto são: - validar o uso de pellets e regurgitações
na avaliação das dietas de aves marinhas; - avaliar alterações sazonais,
inter-anuais e geográficas na abundância e distribuição dos stocks de
presas marinhas (pequenos peixes, cefalópodes e crustáceos pelágicos e
mesopelágicos) utilizando as aves marinhas como amostradores biológicas;
- comparar as indicações de abundância e distribuição dos stocks de presas
marinhas fornecidas pelas aves, com as obtidas através de arrastos pelágicos
e de meia-água; - estabelecer o papel das aves marinhas nas cadeias tróficas
locais, quantificar as suas áreas de prospecção alimentar e estimar a
biomassa de presas consumida pelas comunidades de aves marinhas; - avaliar
a importância das condições oceanográficas na estruturação dos hábitos
alimentares das aves marinhas.
Referências relevantes: |