Contaminação por mercúrio no ambiente marinho

O ciclo global do mercúrio (EPMAP 1994) é dominado por emissões antropogénicas e naturais de formas gasosas de mercúrio para a atmosfera, as quais são sujeitas a um transporte atmosférico de longa distância. As emissões antropogénicas começaram no fim do século 15 com a mineração de metais preciosos. Actualmente as actividades humanas são responsáveis por 50 a 75% do total das emissões atmosféricas. Os processos de troca ar-mar são uma parte crucial do ciclo biogeoquímico global do mercúrio. A reciclagem do mercúrio entre a superfície do oceano e a atmosfera prolonga a influência antropogénica global e uma porção importante dos efluxos oceânicos contemporâneos são a reemissão de mercúrio antropogénico depositado. No entanto, existe ainda incertezas consideráveis sobre a importância relativa da mistura no interior do oceano como sumidouro ("sink") do mercúrio derivado das actividades antropogénicas.

Os registos históricos de deposição de mercúrio nos ecossistemas aquáticos indicam um aumento de 2 a 5 vezes no nível de contaminação desde os tempos pré-industriais em latitudes médias do hemisfério Norte (Swain et al. 1992, Slemr & Langer 1992). Não obstante, os registos existentes de alterações históricas podem ser afectados por inputs regionais e as evidências do impacto global das emissões antropogénicas são ainda escassas. A necessidade de avaliar as tendências de deposição em locais oceânicos intocados por contaminação foi identificado como uma elevada prioridade. Para além disso, avanços recentes no conhecimento da distribuição e especiação do mercúrio em águas oceânicas evidenciam concentrações crescentes dos compostos de mercúrio metilado na água do mar abaixo da termoclina (Mason & Fitzgerald 1990), o que faz prever um aumento na bioacumulação de mercúrio pelos organismos mesopelágicos.

O trabalho desenvolvido no Departamento centra-se nos determinantes ecológicos da acumulação de mercúrio no biota e variações espaçiais e temporais na contaminação por mercúrio no Atlântico Português subtropical. A área está distanciada das emissões continentais de mercúrio antropogénico e, consequentemente, representa a situação de referência para uma latitude média no Atlântico Norte, o que pode fornecer informações valiosas sobre os processos de escala local, regional e global no ciclo do mercúrio. Um estudo comparativo dos níveis de mercúrio em espécies de peixes com diferente distribuição vertical mostrou um aumento da bioacumulação de mercúrio em ambientes mesopelágicos marinhos (Monteiro et al. 1996). Por outro lado, a medição da concentração de mercúrio em séries temporais (1886-1994) de penas de aves marinhas mostrou um aumento nos níveis de mercúrio de 1,1-1,9% por ano em cadeias alimentares epipelágicas e de 3,5-4,8% por ano em cadeias alimentares mesopelágicas (Monteiro et al. 1997). Enquanto que a taxa de aumento no ecossistema epipelágico está de acordo com as previsões dos modelos, a taxa mais elevada revelada para o ecossistema mesopelágico não tinha sido previamente detectada. Contudo, este último facto coincide com a produção de metilmercúrio abaixo da termoclina e traz novos dados para a compreensão do impacto antropogénico no ciclo marinho do mercúrio.

Referências relevantes:

1) Expert Panel on Mercury Atmospheric Processes, 1994. Mercury Atmospheric Processes: A Synthesis Report, Rep. No. TR-104214. Electric Power Research Institute, Palo Alto, California
2) Mason, R. P. and W. F. Fitzgerald, 1990. Alkylmercury species in the equatorial Pacific. Nature, 347: 457-459
3) Monteiro, L. R., V. Costa, R. W. Furness and R. S. Santos, 1996. Mercury concentrations in prey fish indicate enhanced bioaccumulation in mesopelagic environments. Mar. Ecol. Prog. Ser., 141: 21-25.
4) Monteiro L. R., Furness R. W., 1997. Mercury contamination is increasing faster in North Atlantic mesopelagic foodchains as indicated by time-series of seabird feathers. Environmental Toxicology and Chemistry, 16: 2489-2493.
5) Slemr F. and E. Langer, 1992. Increase in global atmospheric concentrations of mercury inferred from measurements over the Atlantic Ocean. Nature, 355: 434-436.
6) Swain, E. B., D. R. Engstrom, M. E. Brigham, T. A. Henning and P. L. Brezonik, 1992. Increasing rates of atmospheric mercury deposition in midcontinental North America. Science, 257: 784-787.

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