Quantos peixes há no mar?

Por: Miguel Machete

 

A exploração intensiva de determinadas espécies a nível comercial, a poluição aquática provocada pela aplicação de tecnologias poluentes e a pressão antropogénica das zonas costeiras associada ao turismo são três dos exemplos que, nos últimos anos, contribuíram para que a conservação e gestão dos ecossistemas marinhos se tornassem em prioridades da investigação científica. Assim, a monitorização/análise das populações que os constituem é essencial para se compreenderem dois aspectos fundamentais da sua dinâmica: as consequências das interacções “naturais” entre espécies e meio ambiente e a influência do Homem nesse processo.

            Os investigadores que se dedicaram ao estudo desta complexa temática viram-se confrontados desde início com um obstáculo difícil de ultrapassar: Como proceder para quantificar estas populações?

A pesca desde que realizada de uma forma sustentável não é prejudicial para os ecossistemas.

Foto: J Fontes ImagDOP

 

As comunidades de peixes

 

                Os peixes fazem parte de um leque mais vasto de organismos que constituem os ecossistemas marinhos. Se um investigador tiver como objectivo de trabalho abordar estas estruturas biológicas tem, em determinado momento, de saber quantos peixes existem em determinada área. Este facto aplica-se quer estejamos a falar de um estudo confinado a uma poça de maré no intertidal rochoso do Atlântico Norte quer a um estudo que abranja todo o “stock” (número de indivíduos) de determinada espécie no Pacífico. Mas existem diferenças óbvias no tipo de métodos que se podem utilizar para alcançar tais objectivos...

Peixe-cão no Recife Dollabarat.

Foto: F Cardigos ImagDOP

 

A estimativa!

 

Na maior parte dos casos nunca se consegue saber o número exacto de peixes que existe numa determinada área (abundância absoluta). As razões são várias e facilmente apreensíveis como se pode constatar pelos dois exemplos seguintes:  

- as áreas de estudo são quase sempre muito extensas não se podendo realizar uma contagem efectiva,

- as áreas de estudo na maior parte dos casos não são estanques, ou seja, existe uma circulação de espécies que se resume na entrada, saída, nascimento e morte de indivíduos nessas mesmas áreas.

Desta forma cabe ao cientista encontrar a melhor estratégia para se aproximar do número de peixes que existem numa zona (abundância relativa) através de métodos que lhe permitam realizar estimativas. Geralmente, esses métodos são aplicados a uma área restrita sendo os resultados extrapolados para a área total de estudo.

 

Métodos

 

Os primeiros métodos a serem utilizados pela comunidade científica estavam condicionados pelo facto de não existir a possibilidade de contactar “directamente” com o mundo subaquático porque a tecnologia, nesse tempo, não estava suficientemente avançada. Recorria-se assim a métodos destrutivos (alguns deles ainda continuam a ser utilizados porque a evolução tecnológica não nos permite realizar todos os métodos que idealizamos) ou seja, processos de contagem que implicavam a morte dos indivíduos e por vezes a destruição de outros componentes dos ecossistemas aos quais os primeiros estavam associados. O uso de explosivos é um exemplo característico (felizmente em desuso) das metodologia referidas. Numa determinada área eram lançadas ao mar cargas explosivas que ao rebentarem provocavam a emersão de grande parte dos peixes que se encontravam nessa zona. Posteriormente, procedia-se à recolha e contagem dos exemplares. O atordoamento ou morte dos peixes é provocada nesta situação específica pela destruição da bexiga natatória dos indivíduos (órgão essencial à natação). Para além dos efeitos nefastos que provocava verificou-se mais tarde que esta metodologia não era totalmente eficaz já que existem peixes que não possuem bexiga natatória, como é o caso dos anguiliformes (ex: congro, moreias) ou dos cabozes (ex: caboz português), ocorrendo um erro de estimativa devido à ausência destas espécies nas contagens.

O registo de espécies durante o mergulho é uma ferramenta útil para quantificação dos organismos.

Foto: RS Santos ImagDOP

 

Os ictiocidas (venenos letais para peixes) surgiram como uma forma alternativa (mas igualmente destrutiva) para realizar este tipo de estudos. Depois de se isolar uma determinada área submersa e de este composto ser aplicado pelos mergulhadores procedia-se à recolha e contagem dos peixes. As desvantagens porém continuavam a existir já que o veneno se podia dispersar facilmente em áreas amplas (através de correntes, por exemplo) e alguns organismos que não se pretendiam amostrar eram igualmente mortos. Outra alternativa, é recorrer aos anestésicos. Apesar de à primeira vista serem mais adequados, não deixam de ter um impacte negativo no ecossistema e têm, o muito “doloroso” problema, de serem mais onerosos.

A pesca de determinadas espécies foi e continua a ser uma outra forma (considerada destrutiva) de obter estimativas de abundância. Depois de escolher  uma determinada arte para a captura das espécies que se pretendem estudar adopta-se uma unidade de esforço sendo exemplos dessa unidade a quantidade de anzóis utilizados, tamanho das redes, área amostrada ou o número de homens que realizam a pesca numa embarcação. Posteriormente, divide-se a captura realizada por essa unidade de esforço obtendo-se um valor proporcional à abundância – Capturas por unidades de esforça ou CPUE. De forma simplificada podemos dizer a título de exemplo que, se a CPUE diminui ao longo dos anos, existe uma forte probabilidade de o “stock” (número de indivíduos) em estudo também estar a diminuir.

Em 1943 Jacques Cousteau e Emile Gagnan inventam o primeiro equipamento de mergulho autónomo, revolucionando o mergulho amador e profissional.  Este sistema foi posteriormente aplicado à investigação, tornando-se possível efectuar estimativas de abundância in situ (no exacto local onde se encontram os peixes) até aos 40 metros de profundidade (regra geral).

Em 1954, V. E. Brock desenvolveu um método em que dois mergulhadores faziam um percurso de 470 metros ao longo de um transecto (banda de fundo) previamente definido registando as espécies observadas em placas de plástico. Desde então, desenvolveram-se diversos métodos com base na monitorização visual dos indivíduos (censos visuais). Este tipo de metodologia pode ser dividida em 4 grupos: censos com base em percursos aleatórios (número de indivíduos observados por unidade de tempo), transectos (número de indivíduos observados ao longo de um transecto de determinado comprimento), quadrados (número de indivíduos observados dentro de uma área definida) e pontos fixos (número de indivíduos observados a partir de um ponto definido no fundo do mar). Estas metodologias podem ser adaptadas utilizando-se para o efeito câmaras de filmar ou mesmo veículos subquáticos comandados à distância (Remoted Operated Vehicles – ROV). Uma das grandes desvantagens dos censos visuais (efectuados por mergulhadores) é o facto de, na maioria dos casos, só poderem ser realizados nas zonas costeiras onde a profundidade reduzida (até 40 metros) possibilita a permanência do investigador o tempo suficiente para realizar a contagem sem ultrapassar a curva de segurança do mergulho autónomo.

 

O FUTURO

 

A tendência natural da investigação nesta área é de evoluir para metodologias cada vez menos destrutivas e cada vez mais eficazes. A detecção de cardumes através de ondas acústicas é já uma prática comum sendo possível identificar através delas determinadas espécies como a sardinha ou o arenque, uma vez que reflectem uma “imagem” específica que as distingue de outros peixes. Da mesma forma, também já é possível utilizar submersíveis de dimensões reduzidas para realizar contagens de espécies que habitam profundidades mais elevadas embora estes métodos ainda estejam em desenvolvimento.

 

A avaliação dos tunídeos continua a ser feita com base nas capturas por unidade de esforço.

Foto: J Fontes ImagDOP

 

 

O exemplo da investigação nos Açores

 

A Universidade dos Açores no âmbito da sua colaboração com entidades como o Instituto de Sistemas e Robótica do Instituto Superior Técnico e a Rinave, entre outros parceiros internacionais, participa em projectos que visam a construção de veículos autónomos que possam ser aplicados neste tipo de investigação. O “Infante” e o “Delfim”, do Instituto de Sistemas e Robótica de Lisboa, ou o “Caravela”, do Consórcio Caravela, são protótipos de veículos autónomos e robotizados que permitirão desenvolver missões dirigidas à caracterização do oceano e, indirectamente, determinar o estado de certos recursos (como os peixes). Estes projectos têm financiamento da Comissão Europeia e do Ministério para a Ciência e Tecnologia.

Veículo "Infante" em testes no Porto da Horta.

Foto: L Sebastião ISR-IST

Através da acústica e de um sonar de varrimento lateral conseguirão criar “imagens” dos cardumes de peixes no seu ambiente natural possibilitando, por exemplo, a realização de censos, observações de comportamento e determinação das profundidades onde os peixes se encontram. A área de estudo que pode ser coberta por estes veículos, bem como as suas elevadas autonomias, irão permitir, com exigências logísticas relativamente reduzidas, uma recolha de dados mais robustos e completos.

Grande parte dos países a nível mundial estão a coordenar-se, enquadrados num Programa de nome “Census of Marine Life”, para identificarem todas as espécies marinhas, rastrearem a sua distribuição e aproximarem-se da sua quantificação. Dentro deste Programa, o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores faz parte da Iniciativa MAR-ECO e CHESS, a primeira visa a caracterização de padrões e processos nos ecossistemas do Centro Norte-Atlântico. A segunda, Iniciativa CHESS, visa o estudo da biogeografia e da biodiversidade dos ecossistemas dependentes da quimiossíntese.

 

Apesar de ainda ser necessário recorrer a métodos destrutivos para se tentar saber quais as abundâncias de determinadas espécies devido às suas características particulares (ex. habitantes de profundidades elevadas) espera-se que dentro de alguns anos essas técnicas se tornem desnecessárias. Com o avanço permanente das tecnologias e a sua aplicação à investigação, alcançaremos um cenário em que o grau de perturbação dos ecossistemas será muito reduzido sendo possível, no entanto, estimar com maior rigor a quantidade de peixes que habitam os nossos mares de forma a poder efectuar uma conservação e gestão adequada desses recursos. 

Um ecossistema saudável reflecte-se ao nível de todas as espécies, mesmo as que não são o alvo da pescaria, como este coral-negro.

Foto: Robert Hofrichter ImagDOP

 

Rainha ou Thalassoma pavo.

Foto: F Cardigos ImagDOP

PARA SABER MAIS:

Artigos:

Ausubel, J.H. 1999. Toward a Census of Marine Life. Oceanography 12(3): 4-5.

Harmelin-Vivien, M., J.-G. Harmelin, C. Chauvet, C. Duval, R. Galzin, P. Lejeune, G. Barnabé, F. Blanc, R. Chevalier, J. Duclerc & G. Lasserre. 1985. Évaluation Visuelle des Peuplements et Populations de Poissons: Méthodes et Problèmes. Revue d’Ecologie (Terre Vie), Tome 40, No. 4:467-539.

 

Páginas Internet:

Census of Marine Life - http://www.coreocean.org/censhome.html

Iniciativa MAR-ECO – http://www.efan.no/midatlcensus/

Iniciativa CHESS - http://www.wm.edu/coml/

Projecto MAROV - http://www.horta.uac.pt/projectos/marov/

Veículo Caravela - http://www.caravela2000.com/

Veículo Delfim - http://dsor.isr.ist.utl.pt/Projects/Delfim/

Veículo Infante - http://dsor.isr.ist.utl.pt/Projects/Infante/

 

BIOGRAFIA:

Miguel Machete licenciou-se em Biologia Marinha e Pescas, na Universidade do Algarve em Dezembro de 1998. A sua tese de licenciatura constou da caracterização da comunidade de peixes crípticos de uma Área de Paisagem Protegida do Faial (Açores) utilizando um método de censos visuais. É um dos mergulhadores do SCUBADOP desde 1997. Encontra-se neste momento a coordenar o POPA - Programa para a Observação das Pescas para os Açores. E-mail para contacto: miguel@notes.horta.uac.pt