O Sargo

Por: Frederico Cardigos

Introdução

Não há apenas uma espécie de sargo. Na realidade o género Diplodus agrupa 22 espécies e sub-espécies, tendo a última subespécie sido descrita em 1984 por Bauchot e Bianchi. Nenhuma das espécies está em perigo a nível mundial, contudo o tamanho médio de algumas espécies em algumas regiões (por exemplo no mediterrâneo) tenha diminuído dramaticamente nos últimos anos. Adicionalmente, em Portugal Continental, as espécies Diplodus annularis, D. bellottii, D. cervinus, D. puntazzo, D. sargus e D. vulgaris estão citados como comercialmente ameaçadas.

Como resultado de uma versatilidade adaptativa elevada, o sargo especiou de forma surpreendente havendo sub-espécies cuja distribuição está limitada a um pequeno grupo de ilhas. Estes são os casos, por exemplo, do Diplodus sargus helenae que está limitado à Ilha de Santa Helena ou do D. sargus ascensionis limitado à Ilha de Ascensão.

Em Portugal continental a espécie mais comum é o Diplodus vulgaris e nos Açores é o D. sargus cadenati. Nos Açores, no meio de grandes cardumes da espécie mais comum, muito raramente, aparecem elementos de D. vulgaris. Não é preciso estar muito atento para perceber que há algo de “errado” com aquele sargo. O contraste do prateado do D. vulgaris é desconcertante quando está no meio de um cardume de D. sargus cadenati.

Qualquer das espécies de sargos é inofensiva para os seres humanos.

Descrição

Neste artigo iremos focar principalmente o Diplodus sargus cadenati visto ser a espécie mais comum nos Açores. Mas como distinguir esta espécies das restantes existentes em Portugal? Não é fácil. Comecemos por descrever o D. sargus cadenati: tem o corpo oval, elevado e é comprimido dorso-ventralmente, boca ligeiramente protáctil (distenção anterior dos maxilares no momento de ingestão da presa), a cor dominante é o prateado e, para além de uma mancha no pedúnculo caudal, apresenta faixas verticais, mesmo nos maiores indivíduos.


Diplodus sargus cadenati é a espécie de sargo mais comum nos Açores.
Foto: R Patzner ImagDOP

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Diplodus cervinus – apresenta um corpo mais amarelado, sem mancha no pedúnculo caudal e as faixas verticais são largas.

Diplodus puntazzo – a melhor característica diagnosticante é possuir maxilares especialmente projectados anteriormente.

Diplodus sargus lineatus – apresenta faixas muito pronunciadas e mancha no pedúnculo caudal.

Diplodus sargus sargus – os adultos não apresentam faixas.

Diplodus vulgaris – tem a mancha no pedúnculo caudal e, por vezes, uma faixa (apenas) junto à cabeça, mas não apresenta faixas verticais ao longo do corpo.

Diplodus vulgaris é a espécie mais comum no Continente.

Foto: J Fontes ImagDOP

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Não desespere se não conseguir distinguir as espécies facilmente. De facto, nem mesmo os olhos mais treinados deixam de ter dúvidas na distinção entre algumas das espécies. Com o aumento do número de mergulhos irá verificar que existem ténues diferenças, até no comportamento, que o ajudarão a melhor sistematizar as espécies.

 

Biologia e Ecologia

Em termos de especiação, uma das razões para a versatilidade de adaptações advém da complexidade das maxilas. De facto, possuem caninos, molares e um outro tipo de dentes que se aproxima dos incisivos, o que lhes permite adaptarem-se a diversos tipos de alimentação. Pode-se dizer que as maxilas dos sargos são muito parecidas com as dos mamíferos. Estas características, aproximadas pela especiação, apesar de não estarem relacionadas geneticamente, têm o nome de “análogas”. No caso contrário, quando ocorrem soluções diferentes com base na mesma raíz genética, (por exemplo, os braços dos primatas e as barbatanas dos mamíferos marinhos), adopta-se o nome de “homólogas”.

O tamanho em que o sargo é mais habitualmente observado pelos mergulhadores situa-se entre os 20 e 30 cm. Na maioria das espécies, chega à maturidade quando atinge 17 cm, ou seja, com dois anos de vida os sargos estão aptos a reproduzir-se. Nos Açores o período de reprodução, no caso de D. sargus cadenati, ocorre entre entre Março e Junho. No Continente este processo é registado cerca de três meses mais cedo.

O habitat preferencial dos sargos coincide com as zonas de rochas ou semi-arenosas. Por vezes agrupam em zonas portuárias, independentemente do tipo de fundo, onde se alimentam de restos de peixe rejeitados pelos pescadores. Isto significa que para além de se alimentarem de pequenos crustáceos, moluscos (preferencialmente), salpas, algas, poliquetas e equinodermes também são necrófagos, o que é um reflexo da versatilidade alimentar referida anteriormente. Outro comportamento, que comprova a versatilidade dos sargos são as associações alimentares que estes mantêm com outros peixes, como os salmonetes (Mullus surmuletus). Os sargos aproveitam o trabalho dos salmonentes , que com os seus dois barbilhos escavam na areia à procura de pequenos invertebrados, para se alimentarem de pequenos organismos que são levantados durante as escavações .

Encontram-se muitas vezes aglomerados em cardumes com cerca de uma dezena de indivíduos. Nestes cardumes, é comum encontrarem-se indivíduos de outras espécies. São também observados em números elevados especialmente em buracos de média dimensão e nas zonas de rebentação junto à costa.

 

Cardume de sargos misturado com indivíduos de outras espécies.

Foto: J Gonçalves ImagDOP

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Tabela I - Resumo de algumas características (TL – do inglês “total lenght” comprimento total; idmax – idade máxima em anos; pmax – peso máximo em gramas; ppmat – peso de primeira maturação em gramas):

Espécie

Comprimento máximo (TL em cm)

Distribuição (principal)

Distribuição profundidade (m)

Outras

Diplodus annularis

24

67°N - 27°N

0 - 90

7 (idmáx)

Diplodus argenteus argenteus

29.2

20°S - 35°S

 

2500 (pmax)

Diplodus argenteus caudimacula

30

Atlântico centro-Oeste

 

 

Diplodus bellottii

30

37°N - 15°N

0 - 100

 

Diplodus bermudensis

30

Endémico da Bermuda

 

 

Diplodus cervinus cervinus

55

47°N - 35°S

30 - 300

2740 (pmax); 300 (ppmat)

Diplodus cervinus hottentotus

60

 

0 - 100

33 (idmax)

Diplodus cervinus omanensis

30

Tropical

 

 

Diplodus fasciatus

40

Endémico de Cabo Verde

0 - 100

 

Diplodus holbrookii

46

40°N - 25°N

0 - 28

 

Diplodus noct

25

Tropical. Endémico do Mar Vermelho

1 - 8

 

Diplodus prayensis

35

Endémico de Cabo Verde

0 - 100

 

Diplodus puntazzo

60

42°N - 28°S

0 - 150

1680 (p max); 320 (ppmat)

Diplodus sargus ascensionis

22

Tropical. Endémico da Ilha Ascensão.

 

 

Diplodus sargus cadenati

45

Costa Atlântica da Biscaia às Canárias (inc. Açores)

0 - 150

400 (ppmat)

Diplodus sargus capensis

45

Atlântico Sul, 10 a 35ºS

0 - 50

21 (id máx)

Diplodus sargus helenae

31

Endémico da Ilha de Santa Helena

 

 

Diplodus sargus kotschyi

30

Índia, golfo pérsico

 

 

Diplodus sargus lineatus

28

Endémico de Cabo Verde

0 - 30

 

Diplodus sargus sargus

45

47°N – 28°S incluindo Mediterrâneo

2 - 50

1870 (pmax); 10 (idmax)

Diplodus vulgaris

45

50°N - 40°S

0 - 160

3000 (pmax); 550 (ppmat)

Captura

As artes de rede são as mais utilizadas para a captura comercial de sargos (principalmente no Mediterrâneo). Mas é na pesca lúdica que, com um pouco de exagero, se pode dizer que o sargo é “a vítima”. De facto, os caçadores submarinos e os pescadores de costa não lhes dão tréguas. A este comportamento por parte dos humanos alia-se, na miséria dos sargos, o seu próprio comportamento. Quando escondidos em buracos são presas fáceis dos caçadores, que podem regressar diversas vezes sem que estes entrem em fuga. O seu comportamento de fuga e ocultação quando estão em perigo pode-lhes ser adverso se estiverem na presença de um caçador experiente. Em mar aberto o comportamento não é habitualmente o mesmo, dificultando a captura por parte dos caçadores.

Os pescadores lúdicos, que da costa lançam os anzóis acabam por exercer o seu esforço de pesca, de uma forma concentrada, na área favorita dos sargos mais pequenos, a zona de rebentação. Como o esforço é elevado e eficiente, é importante respeitar os tamanhos mínimos de captura. Para estas espécies, um indivíduo com menos de 20 cm é um indivíduo demasiado jovem para ser capturado, por ainda não ter tido hipótese de se reproduzir e assim contribuir para a manutenção e diversidade genética da espécie.

Inexplicavelmente, 15 cm é o tamanho mínimo de captura de sargos autorizado por lei. Num momento em que tanto se fala da ruptura de mananciais é pouco razoável manter um tamanho de primeira captura que potencialmente pode colocar em perigo a própria espécie. Chama-se também a atenção para a importância de modificar o peso mínimo de captura admitido pela Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas nas provas de caça submarina. Os actuais 400g não protegem todas as espécies de sargo em relação à primeira maturação. Era por isso importante subir o peso mínimo de captura para 550g ou, em alternativa, diferenciar os pesos consoante a espécie.

 

Diplodus sargos cadenati.

Foto: F Cardigos ImagDOP

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O Sargo no mundo

Taxonomia

CLASSE: Actinopterygii

ORDEM: Perciforme
FAMÍLIA: Sparidae
ESPÉCIE: Diplodus spp.

 

Nomes comuns

Espécie

Português

Espanhol

Francês

Inglês

Outras

Diplodus annularis

Sargo-alcorraz

Sargo

Sparaillon commun, Sargue ou Sparaillon

Annular seabream

Ringelbrasse (Alemão), morskoi karas (Russo)

Diplodus argenteus argenteus

Marimbá (Brasil), marimbau (Brasil), pinta-no-cabo (Brasil)

Sargo (Uruguai)

 

South American silver porgy, silver porgy (EUA e Bahamas)

Prazma srebrzysta (Polaco)

Diplodus argenteus caudimacula

 

Sargo fino, sargo (Cuba) 

Sar argenté

Silver porgy, roundspot porgy (Micronesia)

 

Diplodus bellottii

Sargo-do-Senegal

Raspaillon (Mauritânia)

Sparaillon africain, petit sar, sparaillon (Mauritânia)

Senegal seabream, breca (EUA)

Sundö (Wollof)

Diplodus bermudensis

 

 

 

Bermuda porgy (EUA)

 

Diplodus cervinus cervinus

Sargo veado (Portugal e Angola), sarrajão, mariquita-da-pedra (Angola) e olho-de-boi (Angola).

Sargo breado, sarg imperial (Catalunha), sargo soldado (Mauritânia)

Sar a grosses lévres, sar

Zebra seabream

Zebrabrasse (Alemão), H'addâd Dboûlyeh (Árabe), N'Gaté Yennö (Wollof)

Diplodus cervinus hottentotus

Sargo zebrado (Moçambique)

 

Sar à grosses lèvres 

Zebra (África do Sul)

Wildeperd (Afrikaans)

Diplodus cervinus omanensis

 

 

 

Oman porgy

 

Diplodus fasciatus

Sargo-de-faixas, sargo preto (Cabo Verde),

Sargo listado

Sar noir du Cap Vert

Banded seabream

 

Diplodus holbrookii

Sargo-da-Florida

Sargo cotonero

Sar cotonnier

Spottail pinfish

 

Diplodus noct

 

Sargo del Mar Rojo

Sar de la Mer Rouge

Red Sea seabream, Arabian pinfish (Micronesia)

 

Diplodus prayensis

Sargo safia de Cabo verde, sargo salema (Cabo Verde)

Majorra, mucharra ou sargo dorado

Sar à tête noire du Cap Vert 

Two-banded seabream

 

Diplodus puntazzo

Cidra, sargo bicudo (Cabo Verde)

Sargo picudo

Sar à museau pointu, sar tambour, sar

Sharpsnout seabream, Puntazzo (EUA)

Spitzrasse (Alemão), Zubarik (Russo)

Diplodus sargus ascensionis

 

 

 

 

 

Diplodus sargus cadenati

Sargo-legítimo, Sargo (Açores)

Sargo marroquí 

Sar commun du Maroc

Moroccan white seabream

 

Diplodus sargus capensis

Sargo-do-Cabo, Sargo de Cabo (Moçambique) Mariquita (Angola)

Sargo común del Cabo

Sar commun du Cap

Cape white seabream

Kolstert (Afrikaans)

Diplodus sargus helenae

 

 

 

St. Helena white seabream, old wife (St. Helena)

 

Diplodus sargus kotschyi

 

Sargo luna llena

Sar lune

One spot seabream

Emchawah, Kawfar  ou Kofer (Árabe)

Diplodus sargus lineatus

Sargo de Cabo Verde e sargonhanco ou bicudo (Cabo Verde)

Sargo de Cabo Verde

 

Striped white seabream

 

Diplodus sargus sargus

Sargo-legítimo-do-Mediterrâneo

Sargo

Sar commun,  Sar rayé (Argélia)

White seabream, blacktail (África do Sul)

Geißbrasse (Alemão), Belyi sarg (Russo)

Diplodus vulgaris

Sargo-safia, sargo (Açores*)

Sargo mojarra

Sar à téte noire, sar

Common two-banded seabream, blacktail bream (EUA)

Zweibindenbrasse (Alemão), Klyuvoryl (Russo)

* muito raro

Para saber mais

Internet

 

Livros e Revistas

Outros

Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas - Regulamento das Provas de Caça Submarina para o Ano 2001.

 

Legislação: Portaria nº 27/2001, de 15 de Janeiro.

Agradecimentos

Agradecimento ao meu colega Telmo Morato pela revisão deste texto.

Biografia

Frederico Cardigos - é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) e encontra-se na fase terminal do mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. Hoje, é bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente com o Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).