O Peixe-Lagarto: Um Predador Surpreendente

Marta Soares, Luís Sousa e João Pedro Barreiros


O peixe-lagarto Synodus saurus.
Foto: RS Santos - ImagDOP

Os estudos ecológicos e etológicos estão a revelar aspectos muito interessantes e misteriosos sobre as comunidades de organismos presentes nas águas litorais açorianas. Assim se justifica a importância do seu conhecimento, nomeadamente das teias tróficas locais e da estrutura das comunidades litorais. Os trabalhos com o peixe-lagarto que têm sido por nós realizados in situ, recorrendo ao mergulho com escafandro autónomo mas, sobretudo, em apneia.

O peixe lagarto Synodus saurus (Linnaeus, 1758) pertence à família Synodontidae, a qual é representada nos Açores, por mais duas espécies, nomeadamente, Bathysaurus ferox (Günther, 1878) e Bathysaurus mollis (Günther, 1878). Todavia, estas duas são habitantes de ambientes profundos e nunca se observam em mergulho excepto, e se tiver sorte, as suas formas larvares, que derivam à superfície do Oceano.

Este peixe tem uma distribuição geográfica que se estende desde os arquipélagos da Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde) até à plataforma continental Este-atlântica de Marrocos e ao Mediterrâneo. No Atlântico Ocidental, ocorre nas ilhas Bermudas, Bahamas e Leeward Islands (Ilhas de Sotavento das Caraíbas).

O peixe-lagarto é uma espécie muito comum em águas açorianas. Porém, o facto da sua biologia ser praticamente desconhecida, levou-nos a estuda-lo e a tentar desvendar alguns dos seus mistérios.
Ainda que, em Portugal, não seja comercialmente apelativo, já o é em alguns países do Mediterrâneo, tais como Espanha, Itália, Grécia e Israel, onde é frequente a sua presença nos mercados locais.

Estes animais habitam, principalmente, águas que circundam ilhas, sendo encontrados a pequenas profundidades (até 20 metros), embora estendam a sua presença até cerca de 400 m de profundidade. Vivem, sobretudo, em substratos arenosos, mas também rochosos, variando o seu padrão cromático dorsal, composto por bandas ou manchas características, o que faz com que se apresentem sempre eficazmente camuflados em qualquer tipo de fundo.

Alimentação

É fundamental para o conhecimento intensivo e abrangente da auto-ecologia e do papel ecológico dos organismos no ecossistema o estudo da sua dieta e dos seus hábitos alimentares. Os resultados obtidos da análise dos conteúdos estomacais desta espécie surpreenderam-nos. Ao contrário do que se poderia inicialmente supor, o peixe lagarto alimenta-se preferencialmente de pequenos peixes pelágicos (p. ex. sardinhas - Sardina pilchardus -, pequenas barracudas - Sphyraena viridensis - e carapaus ou chicharros - Trachurus picturatus), mas também de organismos bênticos ou demersais (p. ex. solhas - Bothus podas maderensis - , rascassos - Scorpaena maderensis -, peixes-rei - Coris julis -, besugos - Pagellus acarne -, ou até jovens peixes-lagarto). A sua preferência pelos pequenos peixes pelágicos de hábitos gregários foi corroborada pelas observações do seu comportamento predatório.


Peixe lagarto prepara ataque.
Foto: R Patzner - ImagDOP

A dieta do peixe-lagarto tem uma componente essencialmente piscívora. Porém, esta espécie também se alimenta de cefalópodes (lulas) e de pequenos crustáceos. O seu alvo preferencial tem sido, sem dúvida, a sardinha, sendo esta a única espécie que está sempre presente na dieta deste predador ao longo dos meses. Este facto reflecte, em grande parte, a actual abundância de S. pilchardus nas águas açorianas. A ocorrência de juvenis de barracuda nunca havia sido antes referenciada. A presença de um ectoparasita de peixes muito comum, o crustáceo isópode Anilocra physodes, nos conteúdos estomacais deste predador, revelou-se, de certa forma, inesperada. Isto porque, aparentemente, esta espécie não se associa a peixes limpadores. Neste caso, a sua ingestão poderá ser um método de auto-regulação do parasitismo. Por diversas razões, estamos certos que a injestão do isópode não resultou de uma ingestão associada a outra presa.

Este predador apresenta uma estratégia alimentar mista, porque combina uma situação de especialização relativamente a uma espécie abundante (S. pilchardus), que é comum à totalidade da população, mas apresenta, simultaneamente, uma situação de especialização individual. Cada espécie de presa, deste conjunto, é capturada por uma pequena fracção de peixes-lagarto. Esta característica é típica de um predador generalista e oportunista, de grande adaptabilidade.

Comportamento alimentar

A análise individual do comportamento de uma espécie é indispensável como complemento de qualquer estudo alimentar e/ou reprodutivo (ver abaixo). Desde o final do Inverno de 1999 que temos observado peixes-lagarto no seu habitat natural com o objectivo de descrevermos os principais aspectos comportamentais.

A habitual postura de emboscada é a "imagem de marca" desta espécie. Estes peixes são frequentemente encontrados imóveis, apoiados nas barbatanas pélvicas, o que lhes confere uma postura relativamente inclinada em relação à superfície. Podem estar parcialmente enterrados, sendo visível a quase totalidade do seu dorso, mas usualmente, apenas a cabeça ou parte da cabeça, permanece fora do substrato. A sua postura característica e os olhos posicionados no topo da cabeça, permite-lhes uma visualização muito favorável do ambiente circundante e uma eficaz capacidade de resposta a eventuais estímulos. A sua excelente camuflagem no substrato pode ser uma vantagem em termos predatórios, mas é também um mecanismo anti-predação.


Peixe-lagarto completamente dissimulado na areia.
Foto: R Patzner - ImagDOP

Não é raro sermos surpreendidos por uma movimentação veloz por parte de um ou mais indivíduos desta espécie, em direcção às suas presas, que nadam na coluna de água. Podem, também, persegui-las furtivamente ou até permanecer imóveis durante largos minutos, antes de atacar, o que sugere que o momento de desferir o ataque é absolutamente crítico.

Dizer-se que o comportamento alimentar de S. saurus é totalmente fundamentado na sua imobilidade é uma ideia, em grande parte, errada. A velocidade empregue nos seus movimentos predatórios, quer sejam dirigidos a espécies de hábitos gregários e pelágicos ou a espécies demersais, é o elemento chave ao seu sucesso predatório.

A chegada de um cardume de pequenas sardinhas, dá ao fundo uma movimentação incrível. Surgem peixes-lagarto de todos os lados, disputando entre si o local mais adequado para a emboscada. Então, de um período de "tréguas", passamos a uma agitação frenética. Os ataques sucedem-se, veloz e sucessivamente! E, tal como uma tempestade que o vento parece trazer, o "reboliço" segue o cardume à medida que este se afasta do olhar do observador.

Reprodução

O estudo da biologia reprodutiva de peixes é importante porque ajuda a compreender as capacidades de sobrevivência e sucesso adaptativo de uma espécie num determinado meio ambiente. É também de grande utilidade para a gestão de ecossistemas e, finalmente, é determinante para uma melhor gestão de recursos pesqueiros. A reprodução de S. saurus é um aspecto pouco conhecido da sua biologia, nomeadamente nos Açores. No entanto, nos poucos estudos realizados noutros locais como, por exemplo, no Mediterrâneo, verificou-se que a época reprodutiva ocorre entre Fevereiro e Agosto. Nos Açores, a reprodução verifica-se entre a Primavera e o Verão, mais especificamente entre Abril e Agosto, tendo o seu pico máximo no mês de Julho. Verificou-se, durante este trabalho, que a maioria dos machos está fisicamente apta a reproduzir-se no mês de Junho.

Outro aspecto curioso foi a proporção entre sexos que, no mesmo mês, passou de duas fêmeas/um macho para uma fêmea/um macho. Muito provavelmente, este aspecto poderá estar relacionado com uma estratégia reprodutiva. Verificou-se, que as fêmeas fazem posturas assíncronas e os machos têm ciclos de produção de esperma também assíncronos. Em termos reprodutivos, este facto significa que as fêmeas irão fazer várias posturas ao longo da época de reprodução.

Outro aspecto relevante para a reprodução dos peixes, é o gasto de energia a que os animais estão sujeitos durante a época de acasalamento. Os machos e, principalmente, as fêmeas, utilizam reservas de energia acumuladas, por exemplo, no fígado, durante a fase de maturação dos ovos e espermatozóides. O que se constatou no caso do peixe-lagarto foi que, provavelmente, ele retira a energia que necessita para a maturação dos ovos e espermatozóides, não só de reservas feitas no fígado, como também directamente da alimentação. Isto pode justificar a opção alimentar: principalmente, presas de elevado valor calórico (sardinhas, carapaus, etc...).

Comportamento Reprodutor

No período antecedente ao mês de Julho, momento de maior intensidade reprodutiva, verificou-se um aumento do número de machos, que se encontravam distribuídos em volta de um peixe de maior dimensão que consideramos ser a fêmea (os exemplares de maior tamanho a que tivemos acesso eram fêmeas). No decorrer do período de reprodução, registámos algumas perseguições por parte destes peixes a membros da sua espécie. Ficámos com a idéia que, provavelmente, o peixe-lagarto terá uma estratégia reprodutiva em que a fêmea elege o macho mais apto, seleccionado através de competição entre vários machos. O macho mais forte irá acasalar com a fêmea, permanecendo o par imóvel, frente-a-frente, sobre o substrato. Neste caso, e embora esta espécie não exiba dimorfismo sexual, a existência destes pares, num curto espaço de tempo, poderá permitir a identificação de pares sexuais.


Indivíduo Synodus saurus, do sexo feminino,
rodeado por um conjunto de machos (situação provável).

No entanto, isto não quer dizer que os machos expulsos por estas perseguições não acasalem. Provavelmente procuram outra fêmea com quem possam reproduzir-se. Em último caso, os machos que não conseguem acasalar, geralmente os mais novos, irão sofrer uma regressão nos seus testículos. Assim, terão que esperar pelo próximo ciclo reproductor, uma vez que ainda não desenvolveram as capacidades necessárias para poderem vencer.

Este é apenas um esboço daquilo que futuramente se poderá tornar um retrato mais completo da biologia deste importante predador. Se tiver oportunidade, dedique algum tempo a investigar zonas arenosas adjacentes a blocos de pedra. Com atenção e boa visibilidade, poderá observar os peixes-lagarto assomando do areal e, se fôr persistente e tiver sorte, pode testemunhar a velocidade dos seus ataques no meio da coluna de água. Na Primavera observe as sanças nupciais.

 


Para saber mais sobre peixes litorais:

Debelius, H. Mediterranean and Atlantic Fish Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 305p.- Guia de identificação dos peixes do Mediterrâneo e Atlântico. Está editado em Alemão, Inglês e Espanhol.

Nahke, P. & P. Wirtz 1996. Underwaterguide: Maldives. Edition Naglschmid. 168p. - Guia de identificação dos peixes das Maldivas. Está escrito em Alemão e Inglês.

Patzner, R. & H. Moosleitner 1995. Underwater guide: Mediterranean sea. Edition Naglschmid. 158p.- Guia de identificação dos peixes do Mar Mediterrâneo. Está escrito em Alemão e Inglês.

Saldanha, L. 1995. Fauna Submarina Atlântica. Publicações Europa-América. 364p. - Este guia tem a vantagem de ser abragente, começa nas algas (se bem que muito superficial neste tema) e acaba nos mamíferos marinhos, passando pelos invertebrados e peixes. Outra vantagem é estar escrito em Português.

Os artigos científicos produzidos sobre o peixe-lagarto no seguimento deste projecto foram:

Sousa, L., J. P. Barreiros, M. S. C. Soares, M. Hostim-silva & R. S. Santos 2003. Preliminary notes on the reprodutive biology of the lizardfish, Synodus saurus (Actynopterygii: Synodontidae) in the Azores. Cybium –International Journal of Ichthyology, 27 (1): 41-45.

 

 Soares, M. S. C., J. P. Barreiros, L. Sousa & R. S. Santos (2002). Agonistic and predatory behaviour of the lizardfish Synodus saurus (Linnaeus, 1758) (Actinopterygii: Synodontidae) from the Azores. aqua – Journal of Ichthyology and Aquatic Biology, 6(2) 53-60.

 

Soares, M. S. C., L. Sousa & J. P. Barreiros 2003. Feeding habits of the lizardfish Synodus saurus (Linnaeus, 1758) (Actinopterygii: Synodontidae), from the azores. aqua – Journal of Ichthyology and Aquatic Biology, 7(1): 29-38.

 


O Peixe-lagarto no mundo:

Inglaterra: lizardfish,
França: poisson lézard.
Espanha: pez lagarto ou lagartija.


Biografias:

Marta Soares: é Licenciada em Biologia Aplicada aos Recursos Animais Marinhos pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Fez a sua tese de licenciatura em Ecologia Alimentar e Comportamental do peixe lagarto Synodus saurus (L., 1758) no Departamento de Ciências Agrárias (Campus de Angra do Heroísmo) da Universidade dos Açores sob orientação de J.P. Barreiros. Encontra-se, presentemente a realizar o seu Doutoramento sobre comportamentos de limpeza em peixes de recifes coralígenos na Universidade de East Anglia, Reino Unido, sob orientação da Profª Dra. Isabelle Cotê. E-mail: msc_soares@hotmail.com

Luís Sousa: é Licenciado em Ciências do Meio Aquático pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, Universidade do Porto. Fez a sua tese de licenciatura em Biologia da Reprodução do peixe lagarto Synodus saurus (L., 1758) no Departamento de Ciências Agrárias (Campus de Angra do Heroísmo) da Universidade dos Açores sob orientação de J.P. Barreiros. Presentemente, é Inspector das Pescas na Ilha Terceira. E-mail: lsousa@portugalmail.pt

João Pedro Barreiros: é Licenciado em Engenharia Zootécnica, Mestre em Ecologia e Etologia e Doutorado em Biologia, Especialidade de Ecologia Animal. É Professor Auxiliar no Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e trabalha em Biologia Marinha, sobretudo em ecologia comportamental de peixes marinhos do Oceano Atlântico. Dedica-se à Ilustração Científica como complemento dos seus trabalhos de investigação. João Pedro Barreiros é patrocinado por Picasso, Simotal Group. E-mail: jpedro@angra.uac.pt