Tubarão-frade e tubarão-baleia: inofensivos gigantes dos mares

Por Pedro Niny Duarte


Tubarão baleia fotografado ao largo do Brasil.
Foto: J Fontes - ImagDOP

A chegada da Primavera assinala o início de mais um ciclo biológico nas águas temperadas frias que banham as costas do Norte da Europa. Enquanto no meio terrestre o progressivo aumento da temperatura e do fotoperíodo desencadeia o tão aguardado florescer da vegetação, no domínio marinho estas alterações ambientais são assinaladas pelo frenesim de produção de organismos microscópicos fotossintéticos que compõem o fitoplâncton. Em breve, estes ter-se-ão multiplicado em densidades astronómicas, originando autênticas explosões (blooms) de vida, constituindo a primeira etapa de uma complexa cadeia alimentar que caracteriza este ecossistema marinho. A súbita abundância de fitoplâncton serve de alimento a outros organismos, constituintes do chamado zooplâncton, possibilitando que estes atravessem um processo semelhante de bloom, reproduzindo-se desmesuradamente até preencherem por completo as camadas mais superficiais da coluna de água. O zooplâncton, por seu turno, irá servir de base à dieta de diversas espécies de pequenos organismos pelágicos, como sejam os arenques, as cavalas e os chicharros, que se alimentam em grandes cardumes.

Todo este fervilhar de vida desenrola-se logo abaixo da superfície do oceano, longe dos olhares de um grupo de turistas que distraidamente se passeiam de barco sobre as águas calmas. A atenção destes prende-se com algo bem mais conspícuo…uma enorme forma triangular que rasga lentamente a superfície. A julgar pelas dimensões da mesma, não restam dúvidas do que se trata: a barbatana de um imenso tubarão! O mesmo é confirmado pelo avião de vigilância que sobrevoa a zona, perscrutando o mar a baixa altitude. Cá em baixo, a mensagem é recebida de modo efusivo. Aliás, não é de todo o pânico que se encontra estampado nas faces dos turistas, que quase se acotovelam uns aos outros para obter um melhor ângulo para a fotografia, a partir do barco que segue de perto o gigantesco peixe. Muito pelo contrário, as suas expressões espelham o grande entusiasmo que sentem ao observar com os próprios olhos tão possante animal. A razão é muito simples: os tubarões-frade estão de volta!

Entretanto, e a muitas milhas de distância, nas quentes águas tropicais que circundam as Ilhas Filipinas, a história repete-se, e somente muda o protagonista: em vez do tubarão-frade (Cetorhinus maximus), surge-se-nos o tubarão-baleia (Rhincodon typus). Enorme e majestoso, desloca-se até aqui para se alimentar nas águas extremamente ricas em plâncton, sobretudo composto pela desova maciça emanada pelos recifes de coral.


Tubarão-frade, Cetorhinus maximus.
Desenho: Les Gallagher ImagDOP.


Tubarão-baleia, Rhincodon typus.
Desenho: JP Barreiros ImagDOP.

De facto, o tubarão-frade e o tubarão-baleia podem ser considerados dos poucos membros que, não obstante o facto de pertencerem ao grupo dos tubarões, cativaram já inúmeros adeptos junto da opinião pública. A fidelidade com que estes animais retornam regularmente aos mesmos locais, ano após ano e por vezes em grandes grupos, atrai um número cada vez maior de curiosos vindos de todos os cantos do planeta, procurando ver de perto o que, até há bem pouco tempo, poucos acreditavam ser possível: um gigantesco tubarão que de temível apenas possui o nome, pois que de resto se comporta tal e qual uma simpática baleia. Foi, aliás, graças a estas duas espécies de tubarões que surgiu recentemente um novo conceito de ecoturismo, que consiste na observação de tubarões no seu meio natural. Conhecido como shark watching, esta é porventura uma das actividades náuticas que mais fascínio tem gerado publicamente nos últimos tempos, a par do já tão divulgado whale watching.


Tubarão-baleia (Rhyncodon typus) fotografado durante a pesca ao atum nos Açores.
Foto: F. Tavares - ImagDOP

Este artigo pretende dar a conhecer alguns factos sobre estas duas criaturas cujo descomunal tamanho é proporcional ao seu carácter dócil e inofensivo. Procurar-se-á sobretudo explorar alguns dos hábitos peculiares das duas espécies de tubarões e ainda ilustrar a forma surpreendente como ambas evoluíram no sentido de apresentarem características morfológicas e comportamentais tão semelhantes às que se encontram na maioria das baleias.

O termo tubarão-frade é um sinónimo da designação original, tubarão-peregrino. Este nome teve origem no hábito que esta espécie tem de deambular, por vezes quase imóvel, à superfície da água, de boca escancarada por forma a permitir a entrada de quantidades incálculáveis de água.

O tubarão-baleia deve o seu nome às dimensões que o seu corpo pode atingir. Chega mesmo a personificar uma autêntica baleia na forma de um tubarão. Nos Açores, o tubarão-baleia é também conhecido como "pintado", em virtude do seu dorso repleto de pequenas manchas esbranquiçadas.


Tubarão-baleia (Rhyncodon typus) fotografado no Brasil.
foto: J Fontes - ImagDOP

A primeira característica que aproxima estes tubarões das grandes baleias é, tal como já foi aqui referido, o seu surpreendente tamanho. O tubarão-baleia é, aliás, o maior peixe do mundo, podendo atingir um comprimento na ordem dos 15 metros e ultrapassar as 12 toneladas de peso! Segue-se-lhe de perto o tubarão-frade, o segundo maior peixe do mundo, que pode crescer até um comprimento de 12 metros ou mais e adquirir um peso superior a 5 toneladas.

As afinidades com os grandes cetáceos não terminam aqui, muito pelo contrário. Basta referir que estas espécies de tubarões são ambas planctívoras, ou seja, alimentam-se de plâncton, que obtêm por filtragem da água através de longas guelras em forma de pente. Por vezes, nadam à superfície a velocidades mínimas, na ordem dos 3-4 km/h, filtrando cerca de 5 000 000 litros de água por hora, ou seja, cerca de 5000 toneladas de água - o volume de água equivalente à capacidade de uma piscina olímpica de 50 metros! As duas espécies apenas diferem no modo como asseguram esta filtragem. O tubarão-baleia é capaz de uma bombagem activa da água, através de um avançado sistema de poderosos músculos que possui na cavidade bucal. Por este motivo, não é invulgar encontrar indivíduos assumindo uma posição vertical na água, com a boca à superfície e engolindo sofregamente densas massas de água carregadas de alimento. Já o tubarão-frade encontra-se desprovido deste tipo de musculatura, motivo pelo qual necessita de nadar continuamente, por forma a assegurar um fluxo passivo de água através das suas guelras.


Detalhe da barbatana caudal de um tubarão baleia fotografado ao largo do Brasil.
Foto: J Fontes - ImagDOP

A dieta do tubarão-frade é composta essencialmente por pequenos crustáceos zooplanctontes, sabendo-se já que exibe uma preferência particular por copépodes calanóides, muito embora não desdenhe os demais tipos de invertebrados microscópicos que pairam suspensos na coluna de água ao sabor das correntes oceânicas. Já o tubarão-baleia alimenta-se de um espectro de presas bastante mais abrangente e diversificado, ingerindo não só pequenos "camarões" (mais conhecidos como krill), como ainda todo o tipo de larvas e desovas pelágicas, chegando mesmo a engolir cardumes de peixes e lulas de pequeno a médio porte que não consigam escapar à sua poderosa sucção. Quando ingere algo maior do que aquilo que procura, o tubarão everte simplesmente o estômago pela boca e expulsa o objecto indesejado.

Ainda hoje se considera que pouco se conhece, de facto, sobre a bio-ecologia básica de ambas as espécies de tubarões. E, como é de prever sempre que tal se verifica, o conhecimento sobre elas está constantemente sujeito a especulações, muitas vezes infundadas, perante alguma impotência da comunidade científica em produzir resposta às numerosas questões que lhe são colocadas. Recentemente, no entanto, uma importante vaga de estudos permitiu clarificar diversos aspectos relativas ao ciclo de vida do tubarão-baleia e do tubarão-frade. Estudos de foto-identificação, efectuados com base em marcas naturais (sinais do padrão de coloração ou deformações congénitas da pele) ou marcas adquiridas (cicatrizes ou outro tipo de lesões físicas) e ainda a marcação de espécimens, têm possibilitado a caracterização de grupos indivíduo a indivíduo. Os resultados obtidos permitiram já demonstrar a ocorrência de uma impressionante previsibilidade com que determinados grupos parecem regressar sempre aos mesmos locais e em épocas do ano muito concretas. Nalguns casos, estas agregações podem mesmo atingir várias dezenas de indivíduos, sendo ao que parece fundamentalmente motivadas por necessidades alimentares ou porventura reprodutivas. Em seguida, referem-se três exemplos deste autêntico fenómeno de homing.

No recife de Ningaloo, um pequeno promontório subaquático situado na costa ocidental da Austrália, todos os anos se aguarda ansiosamente a chegada de dezenas de tubarões-baleia, que ali se congregam para se alimentarem activamente das desovas maciças dos recifes de coral. Este evento coincide, em regra, com as noites de lua-cheia entre os meses de Março e Abril.

Ainda há bem pouco tempo, foi pela primeira vez descrita a ocorrência de semelhantes fenómenos de agregação de tubarões-baleia no oceano Atlântico, mais concretamente junto à barreira de recifes de coral de Belize (Golfo do México). Ao que tudo indica, um mesmo grupo de aproximadamente 25 indivíduos regressa todos os anos a este preciso local, para se alimentar activa e oportunisticamente sobre a desova de algumas espécies de peixes ósseos do género Lutjanus, evento que tem lugar somente durante as poucas horas do crepúsculo das noites de lua-cheia de Abril a Junho.

Relativamente ao tubarão-frade, considera-se que esta espécie apresenta padrões sazonais de migração complexos. Sabe-se já que todos os anos durante os meses de Primavera e Verão cardumes de numerosos indivíduos se reúnem nas águas costeiras das Inglaterra, Escócia, Ilha de Man e outros pontos do Norte da Europa. O seu súbito desaparecimento, com a chegada do Outono e subsequente reaparecimento na Primavera do ano seguinte, leva diversos cientistas a colocar em hipótese que estes animais empreendem anualmente uma longa migração no Atlântico Norte, que se iniciará com o final do Inverno, na costa continental de África (Marrocos e Mauritânia), e que passa pelos mares no Norte da Europa. Pensa-se que o factor determinante estará relacionado com a evolução térmica das águas típica da transição Inverno-Primavera, a que habitualmente estão associados os frentes de elevada produtividade planctonica, a base da dieta daqueles animais.

Em locais como as Filipinas, a costa ocidental da Austrália e a Ilha de Man, o aparecimento cíclico destes animais é encarado pela opinião pública com tal relevância que a comunidade local tem participado activamente em campanhas de shark watching com fins turísticos e conservacionistas. Em certos casos, chegam mesmo a ser impostos autênticos códigos de conduta que regulamentam não só a aproximação de embarcações aos animais mas também a posição e distância a adoptar por parte de mergulhadores, tendo em vista salvaguardar a integridade dos animais face à intervenção humana e assim maximizar a permanência dos mesmos na área. Alguns locais, em virtude da fidelidade com que eram visitados por determinados grupos de tubarões, foram inclusive designados como áreas protegidas, passando a usufruir de legislação orientada para a minimização do impacto das actividades humanas.

Para quem julgue que o paralelismo entre tubarões e baleias se fica por aqui, pense duas vezes. A título de curiosidade, refira-se que os tubarões-frade são também eles capazes de dar espectaculares saltos fora de água, de resto uma prática bastante invulgar entre os restantes tubarões. Presume-se, no entanto, que este comportamento não esteja relacionado com quaisquer interacções sociais semelhantes aos demonstrados pelas baleias, sendo provável que tal se relacione com o desalojamento de parasitas da pele (como copépodes ou lampreias) ou outros organismos comensais (como rémoras) que provoquem algum incómodo aos hospedeiros.

Também no que diz respeito a intervenção humana se podem apontar alguns aspectos comuns entre as duas espécies de tubarões e os grandes cetáceos. De facto, o tubarão-frade foi durante séculos intensivamente explorado por pescadores da Noruega, Irlanda, Escócia e Islândia, que o capturavam utilizando arpão. Também o tubarão-baleia foi, durante alguns anos, pescado com arpão pelo Paquistão e pela Índia. Actualmente, este tipo de pescaria dirigida já não é praticada com a mesma frequência que outrora. Não obstante, tanto o tubarão-frade como o tubarão-baleia continuam a constituir alvos preferenciais de numerosas pescarias artesanais, em particular por parte da Noruega e países asiáticos, nomeadamente a China e o Japão, principais consumidores de derivados destes tubarões e que veem nas suas enormes barbatanas fontes de rendimento fácil e com uma cotação exorbitante nas redes internacionais de comércio. Ambas as espécies, dado o seu grande tamanho, são ainda sendo frequentemente vítimas acidentais de artes de pesca oceânicas pouco selectivas e de grande alcance, tais como redes de arrasto e de emalhar.

As principais organizações ambientalistas mundiais atribuem a ambas as espécies um grau de vulnerabilidade que, sublinham, deve ser encarado com preocupação. O seu estatuto de conservação destas espécies é agravado ano após ano, porém a informação biológica de que se dispõe actualmente não permite ainda gerar números suficientemente realistas quanto ao estado actual das respectivas populações, nem sequer prever os efeitos futuros do esforço de pesca que presentemente incide sobre as mesmas. No entanto, pressupõe-se que os actuais níveis de exploração, desprovidos de acompanhamento científico, venham a ter resultados bastante penalizantes sobre os mananciais. O imparável decréscimo no número de animais capturados pela pesca a nível mundial é já um indicativo de populações sobre-exploradas e sem capacidade de recuperação à altura…

À semelhança do que sucede com os mamíferos marinhos, tanto o tubarão-frade como o tubarão-baleia atingem muito tardiamente a maturidade sexual, não podendo reproduzir-se antes dos 12-20 anos de vida. Também dão à luz as suas crias, após um período de gestação bastante longo (existe quem pense que este pode ultrapassar os 3 anos para o tubarão-frade, o que constituiria inequivocamente o mais longo período de gestação entre todos os vertebrados). Contudo, e como tubarões que são, nenhuma das duas espécies exibe os primorosos cuidados parentais a que há muito nos habituaram os mamíferos marinhos. Característica comum aos peixes de esqueleto cartilagíneo (tubarões, raias e afins), as crias nascem perfeitamente independentes e capazes de seguir o seu próprio destino, sem necessitarem de qualquer protecção ou ensinamento por parte dos progenitores após o parto. Talvez seja este um dos factos que marca a grande diferença de atitude exibida pelas pessoas face a cetáceos e tubarões. Enquanto os primeiros conseguiram desde cedo, com o seu aspecto amigável, conquistar a nossa simpatia e compreensão, os tubarões-baleia e frade nunca beneficiaram da mesma sorte no passado. O prefixo "tubarão" conferiu-lhes mesmo a inevitável conotação negativa e incompreensão por parte do público, e somente nos dias de hoje começamos a tomar alguma consciência do real carisma e do futuro incerto que paira sobre estas espécies. Mas como actualmente os lucros monetários tendem ainda a sobrepor-se aos interesses ambientais, foi recentemente chumbada, sob forte influência das grandes potências comerciais asiáticas, uma proposta que visava o reconhecimento de ambas as espécies como ameaçadas de extinção em diversas regiões do Globo e propunha importantes medidas de restrição ao mercado de produtos derivados. Esta decisão vem, mais uma vez, frustar os esforços de inúmeros cientistas que diariamente se empenham tendo como único objectivo elevar estas espécies a um regime de efectiva protecção.

A título de curiosidade, pode dizer-se que ainda muito pouco se sabe acerca da ocorrência de ambas as espécies em águas açorianas. Tanto uma como a outra são assinaladas com reduzida frequência. O tubarão-frade exibe uma distribuição geográfica quase complementar à do tubarão-baleia, uma vez que o primeiro é encontrado mais perto da costa entre águas boreais e temperadas, ao passo que o segundo se estende por toda a faixa de águas tropicais e temperadas quentes, quer na faixa costeira quer no domínio oceânico. Os Açores serão, porventura, um dos escassos locais a nível mundial em cujas águas é reconhecida a ocorrência de ambas as espécies à mesma latitude. Praticamente tudo o que se conhece sobre o tubarão-frade nos Açores resulta de casos esporádicos de animais que ou são capturados acidentalmente em artes de pesca dirigidas a outra espécie de pescado, ou então dão à costa vítimas de arrojamento. Os tubarões-baleia são, por vezes, detectados e, de certa forma, até mesmo procurados pelos barcos de pesca do atum. Tal facto não é de estranhar, já que é sabido que numerosas espécies de tunídeos (principalmente bonitos), cobias, peixes-piloto, rémoras e outros tipos de pequenos peixes se associam em grandes cardumes em redor destes enormes animais. Estas associações chegam a ser visualmente impressionantes e ainda não são compreendidas na sua globalidade pelos cientistas, mas é provável que a procura de protecção, por parte de uns, e a abundância de presas, por parte de outros, sejam dois dos factores preponderantes. Entre os pescadores açorianos do atum, a opinião parece ser unânime: qualquer sinal de um "pintado" é bem-vindo, pois que representa um "achado" vivo e, como tal, um "bom pesqueiro de atum".

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Agradecimentos

Aos João Pedro Barreiros e Les Gallagher pelos desenhos científicos. Ao Jorge Fontes e ao observador do Programa de Observação para as Pescas dos Açores (POPA) F. Tavares pelas fotografias. Ao Filipe Porteiro pelas correcções. As fotografias realizadas no Brasil foram efectuadas durante o trabalho de campo do Projecto "Plataforma XIV" realizado em conjunto com a Universidade do Vale do Itajaí e co-financiado pela Petrobras. João Pedro Barreiros patrocinado por Picasso, Simotal Group.

Pedro Niny Duarte – é licenciado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em Biologia Aplicada aos Recursos Animais Marinhos. Realizou o seu estágio profissionalizante no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) sobre idade e crescimento do cação, Galeorhinus galeus. Trabalhou no DOP/UAç integrado num programa de marcação de espécies piscícolas de interesse comercial.