Peixes Numa Plataforma de Petróleo ao Largo do Brasil
por: João Pedro Barreiros e Maurício Hostim-Silva
com
Pedro Afonso, Jorge Fontes e Athila Andrade

(símbolos a incluir em conjunto com os do DOP e Universidade dos Açores:)



INTRODUÇÃO

Em Março de 1998, em pleno Verão do Hemisfério Sul e na sequência de uma conversa informal, surgiu a ideia de investigar a comunidade de peixes associada a uma plataforma de petróleo da Empresa de Petróleos do Brasil, PETROBRAS (PXIV), localizada cerca de 200 km ao largo do Estado de Santa Catarina.
O papel destas plataformas petrolíferas como estruturas agregadoras de peixes e de outros organismos marinhos é bem conhecido. Elas funcionam como um recife artificial, fornecendo substratos rochosos em locais onde naturalmente eles não existem.


Plataforma XIV.
foto: J Fontes (c) ImagDOP
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)

Quando as plataformas estão estacionadas em zonas "offshore", como é o caso da Plataforma PXIV, constituem também uma excelente base de operações para estudar o meio marinho envolvente. A PXIV está estacionada no campo petrolífero de Caravelas, sobre um fundo com cerca de 200 metros, e perto do talude continental (Lat.: 26º46'2.2'' S; Long.: 46º47'2.15'' W). Embora as espécies típicas deste habitat oceânico constituam parte importante das pescarias locais, a estrutura e o funcionamento desta comunidade é mal conhecida e a sua documentação em imagens escassa.

Algumas empresas petrolíferas, como é o caso da PETROBRAS, cientes da importância e do crescente impacto das questões ambientais na opinião pública, bem como do risco que acarreta a exploração de combustíveis fósseis, têm vindo a financiar projectos de investigação científica. Nalguns países esta política tem permitido, para além do conhecimento das comunidades biológicas associadas às plataformas, a tomada de decisões, nomeadamente no que respeita à segurança e ao destino a dar às estruturas quando estas são desactivadas. Foi neste espírito que a Universidade do Vale do Itajaí/CTTMar e a Universidade dos Açores /DOP, em conjunto com a PETROBRÁS, que financia o projecto, resolveram unir esforços para tentar corresponder a alguns dos objectivos acima mencionados.

A EXPEDIÇÃO

Após várias deslocações à PXIV, de helicóptero e a partir do Aeroporto da Cidade de Navegantes (situada na margem Norte do Rio Itajaí-Açú) para inventariação logística, adaptação à plataforma e discussão de estratégias com a tripulação, iniciámos o trabalho de mar em Janeiro/Fevereiro do corrente ano, em pleno Verão Austral.
A PXIV é composta, na sua parte submersa, por uma estrutura metálica (ver figura) que lhe assegura a flutuação e estabilidade.


Esquema da Plataforma XIV e distribuição
das principais comunidades de peixes.
Esquema: J Fontes (c) ImagDOP
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)

Começámos o trabalho de mar realizando mergulhos com escafandro autónomo e em apneia privilegiando o principal objectivo desta primeira missão - obter o maior número possível de imagens fotográficas e de vídeo, dos peixes associados à plataforma e fazer o reconhecimento de toda a comunidade biológica.
Fotografámos com câmaras Nikon RS munidas de lentes de 28 a 50 mm e flashs Nikon SB104 e SB105. As fotos de superfície foram realizadas com uma câmara Nikon F90X equipada com lentes zoom 28-80 mm e micro 105 mm. Também utilizámos uma câmara digital Olympus C-820L, o que permitiu trocar impressões, via internet, com os elementos da equipa que em terra davam apoio à missão. Todas as espécies que capturámos, tanto com armas de caça submarina como com linhas e anzol, foram fotografadas. A documentação foi utilizada para construir uma colecção de referência e um catálogo ilustrado de peixes da P XIV.


Coryphaena hippurus
foto: J Fontes (c) ImagDOP.
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)

Conseguimos assim imagens de 35 espécies de peixes, das quais 93% foram fotografadas no seu ambiente natural e 43% após captura. Essas 35 espécies correspondem a 18 famílias e foram observadas em mergulho (30), vídeo remoto (2) e a partir da superfície (3). Como se esperava, a maior parte das espécies era pelágica. Muitos dourados e peixes-porco, salemas do Brasil e lírios, entre outros carangídeos e alguns atuns vinham e revinham do azul próximo, rodeando-nos ou fingindo para logo reaparecerem, curiosos ou indiferentes, medrosos ou atrevidos, numa infinidade de comportamentos a que o nosso rigor biológico se sublimou. No entanto, o avistamento mais impressionante foi um grande tubarão baleia coberto de rémoras que, por várias vezes, nos presenteou com a sua majestática presença e sublime beleza. Estas espécies típicas do ambiente pelágico atraem para junto da plataforma pequenos barcos de pesca artesanal que assim vêm beneficiar desta agregação das espécies. Os pequenos barcos (cerca de 9 m de comprimento) com tripulações de sete a dez homens, chegam a permanecer mais de uma semana no local, na esperança de que o peixe graúdo possa "jorrar da plataforma".
De entre as capturas, 28 exemplares de 4 espécies (Lírio Seriola rivoliana, Salemão Elagatis bipinnulata, Dourado Coryphaena hippurus e Peixe-porco Balistes carolinensis) foram amostrados aplicando técnicas biológicas e recolheu-se material para análise genética.


Rhyncodon typus
foto: J Fontes (c) ImagDOP
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)

A plataforma também alberga, nas estruturas junto à superfície, algumas espécies típicas do litoral e de recifes: meros e pequenos pomacentrídeos territoriais e outros mais típicos de águas tropicais como o peixe-esquilo da Família Holocentridae e alguns Monacanthidae. Optámos por não capturar indivíduos destas espécies uma vez que ocorrem em números muito reduzidos na plataforma. Esta escassez torna-se compreensível se pensarmos no reduzidíssimo substracto pelo qual têm de competir as larvas das espécies litorais que as correntes inadvertidamente arrastam para estas paragens oceânicas.


Abudefduf saxatilis
foto: J Fontes (c) ImagDOP.
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)

A PXIV possui uma câmara monocromática com iluminção e controle remoto que é usada para inspeccionar o veio de extracção. A partir dos 20 metros de profundidade, utilizámos essa câmara para inspeccionar e gravar em VHS os peixes dos habitats mais profundos. Junto ao fundo a câmara revelou a presença constante de um grupo de chernes (que no Brasil correspondem à espécie Epinephelus niveatus e não ao Polyprion americanus das nossas águas). A meia água (entre os 50 e os 100m de profundidade) encontrámos sempre um grande cardume misto de Lírios (Seriola rivoliana e S. lalandi), movimentando-se permanentemente em torno do veio de extracção.

Esta primeira missão de um projecto arrojado mas aliciante, vai ser seguida e continuada durante mais três anos. As possibilidades que se abrem são múltiplas. A estrutura da comunidade e os ciclos de vida dos peixes residentes vão ser acompanhados. O modo como se reproduzem e a forma como fazem ninhos (principalmente os Pomacentridae e os cabozes) e as relações entre espécies (alimentares, competitivas, etc.) são, entre outros, alguns dos campos de estudo com óbvio interesse. As ocorrências dos tubarões-baleia são extremamente interessantes e vamos tentar marcá-los com emissores para detectar os seus movimentos e a eventual ciclicidade da sua ocorrência.

No fim da missão realizámos uma palestra a bordo, dirigida à tripulação que, durante todo o tempo da nossa estada e em todas as situações anteriores a esta mesma missão, se revelou de uma amabilidade a toda a prova e de uma disponibilidade e espírito de entreajuda dignos do maior realce. Sem eles nada teria sido possível. Enfim, a PXIV, constitui um fascinante ilhéu de diversidade que atrai peixes, invertebrados e algas e, até, cientistas que lá vão meter o nariz na esperança de aprender mais qualquer coisa.


Cantherinnes macrocerus
Foto: J Fontes (c) ImagDOP.
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)


Paranthias furcifer
Foto: J Fontes (c) ImagDOP.
(carreguem na imagem para obter uma imagem com maior qualidade)

(caixa)

AGRADECIMENTOS

Este artigo não poderia terminar sem uma viva expressão de agradecimento a todas as tripulações da PXIV e do rebocador "Jesse O". A sua inexcedível disponibilidade para a resolução de problemas, tanto logísticos como técnicos, bem como o interesse demonstrado pelo projecto, tornaram possível, em grande medida, o trabalho efectuado. Não podemos deixar de fazer uma referência pessoal às seguintes pessoas: responsáveis de terra Cláudio Ultra Soares e Ana Cristina Coelho, Comandantes, Técnicos, Tripulantes e Seguranças José Luís, Maomé, William, Fontes, Estanislau Filho, Lobo e Hugo, Cozinheiros Beto e Carlos Lopes, bem como à Senhora Goretti pelo apoio no Laboratório de Ictiologia da CTTMar. Ao Director do CTTMar, Fernando Diehl, um agradecimento muito especial.

(caixa)

João Pedro Barreiros. Nascido em Lisboa em 1964, é Licenciado em Engenharia Zootécnica e é Professor Auxiliar da Universidade dos Açores onde trabalha desde Outubro de 1991. Em 1995 apresentou as suas Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica tendo defendido uma Tese intitulada "Aspectos do Comportamento e da Reprodução do Mero Epinephelus marginatus (Lowe, 1834) nos Açores. Em 2001 obteve o grau de Doutor em Biologia /Ecologia Animal, com uma tese sobre comunidades de peixes litorais do sul do Brasil. Está envolvido em vários projectos de investigação não só na Região como também no Brasil, no Golfo da Guiné e em Moçambique. Lecciona as disciplinas de Etologia Animal e de Ecologia e Poluição do Mar no Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores.

Maurício Hostim-Silva. É formado em Biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Mestre em Zoologia pela Universidade Federal do Paraná e Doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos, São Paulo. Lecciona a disciplina de Ictiologia no curso de Oceanografia do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar na Universidade do Vale do Itajaí, Santa Catarina, Brasil. Tem desenvolvido a sua carreira de investigador em bioecologia de peixes, sobretudo em áreas ligadas à fisiologia reprodutiva de peixes estuarinos.

Pedro Afonso. Licenciou-se em Biologia Marinha e Pescas e é Mestre Ecologia. Realizou a tese de licenciatura em comportamento de castanheta (Abudefduf luridus) no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. Publicou diversos trabalhos científicos sobre biogeografia, ecologia, comportamento e biologia de organismos marinhos. Está neste momento a desenvolver o seu doutoramento sobre o "Efeito de Reserva" realizando estudos comparativos entre o Hawaii e Açores.

Jorge Fontes. Nasceu na ilha do Faial, tendo completados os seus estudos superiores na Universidade do Algarve no ano de 1998, licenciando-se em Biologia Marinha e Pescas. O estágio de final de curso foi realizado no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores onde hoje trabalha no Projecto BARCA. Em paralelo ao estudo que desenvolve realiza fotografia sub-aquática, tendo já sido premiado por diversas vezes.

Athila Andrade. É formado em Oceanografia pelo CTTMar - UNIVALI. Recebeu uma bolsa do programa de iniciação científica do CNPq, para os seus estudos em ictiodiversidade de poças de marés. Renovou a sua bolsa com o intuíto de estudar a biologia reprodutiva de Epinephelus marginatus na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo. Já apresentou diversos trabalhos em eventos científicos nacionais e internacionais. Em 1998, realizou um estágio na Universidade de Açores, sob a orientação do Eng. João Pedro Barreiros e colaborou no ínicio do Projecto P XIV. Recentemente obteve o grau de Mestre em Ecologia Marinha pela Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, e encontra-se a preparar o seu projecto de doutoramento em biologia / ecologia animal, sob supervisão de João Pedro Barreiros.

João Pedro Barreiros teve o apoio da Beuchat/Nautisub.