Pequenas Delicadezas do Fundo do Mar: II - Móveis

Por Frederico Cardigos, Fernando Tempera e Rogério Ferraz

O mergulho de hoje está péssimo. Já nos fartámos de dar à barbatana e nada acontece. Nem um peixe, polvo ou outro organismo interessante. Que fazer? Aproximámo-nos daquela rocha mais por cansaço do que por curiosidade, mas começamos a verificar que afinal está ali algo... Aquela homogeneidade de formas afinal está viva! Há ali algo que podemos apreciar.

Vamos dar-lhe umas pequenas pinceladas sobre este novo cosmos, tendo esperança que estas lhe possam proporcionar ainda maior prazer na sua actividade favorita - o mergulho.

Cnidários

É agradável apreciar a graciosidade das alforrecas, mas convém guardar uma distância de segurança. A questão é que estes animais têm, quase sempre, pequenas células urticantes que, no mínimo, nos causam uma sensação de comichão se lhes tocarmos com a pele nua. De qualquer forma, estes animais devem ser alvo da nossa atenção. Considerar a anulação de um mergulho por causa da presença de grandes concentrações destes organismos pode ser uma opção muito inteligente. As alforrecas mais comuns nos Açores são as mal-afamadas caravelas-portuguesas (Physalia physalis) e as águas-vivas (Pelagia noctiluca). O contacto com a segunda é menos agressivo, mas nada aconselhável de qualquer forma.


Pelagia noctiluca
Foto: J Fontes - ImagDOP

Anelídeos

À semelhança do que se passa com outros grupos, a capacidade de deslocação pode levar-nos a dividir os poliquetas (classe a que pertence a maioria dos anelídeos marinhos) em duas categorias: os sedentários, como os espirógrafos (Sabella spallanzanii), e os errantes, como a lagarta-do-fogo (Hermodice carunculata). Em relação a ambas as espécies mencionadas, sugerimos que evite o toque. No primeiro caso, porque vai levar o animal a recolher-se no seu tubo e deixará de poder apreciar a bela coroa de tentáculos que este organismo utiliza para capturar partículas de alimento. No segundo caso, porque as finas sedas urticantes que recobrem os flancos lhe causarão uma sensação muito desagradável.



Apesar de não serem organismos móveis, os espirógrafos são das mais atrentes delicadezas que habitam os fundos marinhos de Portugal.
Foto: Robert Hofrichter ImagDOP


Hermodice carunculata
J Fontes - ImagDOP

Moluscos

Imagine uma lesma muito bonita, sem aquele aspecto viscoso dos seus parentes terrestres, e cheia de cores vivas, que se misturam sobre formas corporais exóticas. Essa é uma das delicadezas que se podem observar dentro de água e que recebem o nome de nudibrânquios. Muitos aspectos interessantes povoam a vida destes moluscos, que ostentam formas, cores e estratégias alimentares muito diversas. Talvez num próximo artigo desvendemos alguns dos seus segredos.

Admitindo que os nudibrânquios são o equivalente das lesmas, os búzios são o equivalente aos caracóis terrestres. Estes moluscos com concha externa são muito abundantes em toda a zona litoral. Desde o pequeno burgau até à grande buzina (Charonia lampas) (ver adiante), estes animais proliferam nos fundos marinhos frequentados pelos mergulhadores amadores. Aprender, pelo menos, a distinguir algumas das múltiplas espécies que ocorrem nas nossas algas pode ser um passatempo altamente absorvente.


Tal como os gastrópodes, os bivalves, como este Mantellum hians, também nos reservam momentos de grande beleza.
Robert Patzner - ImagDOP


Artrópodes

A maioria dos artrópodes marinhos são crustáceos. Entre eles, e incluídos nas nossas delicadezas, temos os camarões, os pequenos caranguejos e os casa-alugada. Os camarões reservam-nos, frequentemente, as formas mais deslumbrantes e as colorações mais surpreendentes. O facto de serem, normalmente, encontrados nas zonas mais obscurecidas obrigá-lo-á, no entanto, a mergulhar à noite, entrar numa gruta ou descer até a uma profundidade em que a luz escasseie. Noutros casos, bastará espreitar para uma pequena frincha, mas fique atento, não esteja lá uma moreia que lhe pregue algum susto.



Plesionika narval
F Cardigos - ImagDOP


Os caranguejos são muito tímidos. O mais natural é ver um e, enquanto se tenta aproximar, já ele corre em busca de abrigo seguro. Alguns deles têm outras estratégias de evasão, como o caranguejo-envergonhado (Callapa granulata). Este raro caranguejo de fundos arenosos recolhe as pinças em frente à boca e olhos e permanece imóvel, com um ar de quem está envergonhado. "Infelizmente", também procura quase sempre enterrar-se, o que estraga tudo.


Tal como o caranguejo-envergonhado, a Dromia marmorea também permite grandes aproximações, mas a sua confiança é depositada no disfarce proporcionado por uma esponja.
Foto: J Fontes ImagDOP


Para ver um caranguejo-eremita, aproxime-se dele. Verificará que, num primeiro momento, ele se recolhe dentro da concha. Mas não desespere, fique a olhar e espere que ele “perca a paciência”. Invariavelmente, ele irá emergir e voltar à sua actividade. São normalmente pequenos, mas algumas espécies como Dardanus calidus crescem até ocupar conchas de buzinas (Charonia lampas).

Equinodermes

Não toque nas holotúrias! Não se magoará por o fazer, mas o stress provocado ao animal é elevado e poderá, em casos extremos, resultar na ejecção de parte dos intestinos. Isso acontece porque o animal quer provocar uma diversão no presumível predador (ou seja, você!) e assim poder escapar. Obviamente, que a perda dos intestinos, embora seja uma perda recuperável nesta espécie, não lhe é nada saudável. Espécies como Holothuria forskali, muito comum nos Açores, baseiam a sua defesa no lançamento de uns filamentos esbranquiçados e altamente pegajosos (ductos de Cuvier) que são muito pouco agradáveis.


Holothuria sp.
Foto: F Cardigos ImagDOP

E os ouriços? Esses não se mexem, não é? Errado. O movimento dos ouriços é muito lento, mas eles movem-se e é possível verificar esse movimento. Basta, tocar levemente nos espinhos do ouriço e esperar que este inicie uma lenta manobra de fuga. Como um relógio, em que os ponteiros andam, mas sem nos apercebermos, o ouriço-do-mar vai escapando para uma zona mais abrigada. Atenção, não pegue num ouriço! Ao fazê-lo estará a fraccionar múltiplas estruturas tubulares (pés ambulacrários) que seguram o ouriço à rocha.


Sphaerechinus granularis libertando esperma no momento da reprodução.
Foto: RS Santos ImagDOP


A alimentação destes animais apresenta também aspectos curiosos. Fácil de observar nalgumas estrelas-do-mar, é a digestão externa. Depois de se aproximarem da sua vítima, normalmente outros invertebrados, estes organismos evertem as paredes do seu estômago e começam a produzir sucos digestivos para cima dela. Quando estes ácidos permitiram já “amolecer” a presa, recolhem o estômago junto com a presa e acabam de digeri-la internamente. Pode ser macabro, mas é assim que a natureza funciona. E é importante que não se intervenha nestes processos. Um desequilíbrio nestas relações pode lançar a desordem sobre todo o ecossistema. O leitor estará agora a pensar: "e quem é que come as estrelas-do-mar?" Não é? Até chegar aos predadores de topo, todos os organismos nos Oceanos têm predadores. Nos oceanos, estes níveis superiores da teia trófica são ocupados por alguns tubarões (como o tubarão-branco), as grandes baleias (como a baleia-azul), os grandes delfinídeos (como a orca), os grandes peixes ósseos (como os espadartes) e o homem. Mas mesmo estes, por vezes, são presas e não predadores... Por azar, as duas espécies mais comuns nos Açores de estrelas-do-mar têm um comportamento alimentar algo diferente. A Ophidiaster ophidianus alimenta-se de detritos e a Marthasterias glacialis alimenta-se de ouriços, mas sem os digerir externamente... Já em Portugal continental, esta última espécie é frequentemente observável a alimentar-se de mexilhões (Mytilus edulis) evertendo parte do estômago da forma referida no início deste parágrafo.

Mas voltando ao nosso ouriço... Ele alimenta-se de algas e serve de alimento não só a estrelas-do-mar, mas também a alguns peixes, como o peixe-cão (Bodianus scrofa) e o peixe-porco (Balistes carolinensis). As estrelas-do-mar, por sua vez, servem de alimento a, imagine-se, buzinas (Charonia lampas)! Pois é, se alguma vez deparar com uma buzina perto de uma estrela-do-mar deixe-se ficar mais um pouco. Quando a buzina finalmente compreende que está perto de uma possível presa, transfigura-se. Daquela lentidão interminável passa a energética predadora e rapidamente se coloca sobre a estrela tentando alimentar-se. Ao contrário das relações anteriores, raramente este encontro é fatal. A buzina corta um dos braços da estrela-do-mar, mas deixa-a fugir. A estrela-do-mar consegue assim escapar e graças a uma enorme capacidade de regeneração acabará por recuperar o braço perdido. Por isso é que se observa, com alguma frequência, estrelas com três ou quatro braços. E os predadores das buzinas, quem são? Como se referia há pouco, isto é uma história muito longa que se arriscava a terminar muitas linhas à frente. Por isso deixamos essa parte para si. Tente descobrir quem preda os búzios e quem se alimenta dos predadores dos búzios, etc.


Charonia lampas prepara-se para separar um dos braços da estrela-do-mar.
Foto: F Cardigos ImagDOP


Peixes

Normalmente o mergulhador está interessado naqueles peixes de grandes dimensões ou nos pequenos de cores vivas. Mas há um enorme conjunto de outros animais que não se encaixam nas definições anteriores e não deixam, por isso, de ser muito interessantes. O maior grupo destes rejeitados inclui os blenídeos e gobídeos, vulgarmente conhecidos por cabozes. Há mesmo certos peixes que são apreciados quando estão na fase de reprodução, mas que são esquecidos quando as suas cores esmorecem. É o caso dos cabozes-de-3-dorsais, pertencentes ao género Tripterygion. Durante a época de reprodução, os machos destas espécies apresentam um corpo garridamente colorido de amarelo, laranja ou vermelho, contrastando com uma cabeça preta, cuja vivacidade esmorece fora desse período. Esta estratégia permite ser atraente quando é necessário atrair o parceiro, mas manter um perfil discreto quando a época reprodutiva termina de modo a melhor escapar a eventuais predadores.


Tripterygion durante a época de reprodução (esquerda) e fora dela (direita).
Fotos: Robert Patzner e J Fontes ImagDOP


Para saber mais

Estas são as sugestões dos autores para os que querem saber mais sobre pequenos organismos móveis:

Debelius, H. 2000. Mediterranean and Atlantic Fish Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 305p. - Para além do inglês, este guia de identificação para peixes do Mediterrâneo e Atlântico está também editado em Alemão e Castelhano.

Moosleitner, H. & R. Patzner 1995. Unterwasserführer Mittelmeer. Niedere Tiere. 214p. - Guia de invertebrados do Mar Mediteterrâneo em Alemão e Inglês.

Morton, B., J.C. Britton & A.M.F. Martins 1998. Ecologia Costeira dos Açores. Sociedade Afonso Chaves, Ponta Delgada. 249p. - Este livro transmite valiosos conhecimentos sobre o funcionamento dos ecossistemas costeiros dos Açores. Obrigatório na preparação de estudos sobre ecologia na zona entre o supralitoral e o infralitoral dos Açores.

Saldanha, L. 1995. Fauna Submarina Atlântica. Publicações Europa-América. 364p. - O facto de estar escrito em Português confere-lhe uma franca vantagem em relação a outros guias.

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer: Madeira, Kanaren, Azoren (Invertebrates). Niedere Tiere. 247p. - Guia de invertebrados muito completo para os Arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores. Tem boas fotografias e muita informação interessante sobre a bio-ecologia de algumas espécies.

http://www.pg.raa.pt/oceanos - Para além de informações diversas, fotografias, vídeos e sons dos nossos mares, na página do Fórum Oceanos é possível colocar questões e obter respostas sobre qualquer tema marinho.

http://www.horta.uac.pt/species/ - Página do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores dedicada à ilustração fotográfica da Biodiversidade Marinha dos Açores. No que respeita a invertebrados, esta página encontra-se ainda muito incompleta. A sua ajuda para melhorar esta página é importante. Escreva-nos a dizer qual a informação de que necessita para que nós a adicionemos imediatamente.

 

Biografias

Frederico Cardigos é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve e é Mestre em Gestão e Conservação da Natureza pela Universidade dos Açores. É bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, MAROV (PDCTM/P/MAR/15249/1999).

Fernando Tempera é Licenciado em Biologia Aplicada aos Recursos Animais Marinhos pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem trabalhado em projectos relacionados com Conservação Marinha no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç). É contratado pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, MAROV (PDCTM/P/MAR/15249/1999).

Rogério Ferraz é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve, encontrando-se a frequentar o Mestrado em Ciência e Sistema de Informação Geográfica do Instituto Superior de Estatística e Gestão de Informação da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente é contratado pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores, integrado no projecto OGAMP, financiado pelo Programa Europeu INTERREG III b (MAC/4.2/A2).