Pequenas Delicadezas do Fundo do Mar: I - Imóveis

Por Frederico Cardigos, Fernando Tempera e Rogério Ferraz

Naqueles mergulhos em que a macro-fauna não abunda começamos a reparar nos pequenos organismos fixos nas rochas e tentamos adivinhar o que são. Como todos os novatos dentro de uma nova ciência ficamos abismados com a nossa própria ignorância. Tentamos agrupar os organismos, mas rapidamente verificamos que é demasiado complexo. Todos nos parecem algas, mas por outro lado não devem ser... “Dentro de uma gruta escura não devem existir muitas algas. Então o que é isto ?” Há algas que são encrustantes e por isso se podem confundir com esponjas, outras são ramificadas e por isso confundem-se com cnidários. Como sair desta anarquia?

Algas

Quando expostas à luz, as faces superiores das rochas são maioritariamente recobertas por algas. Isto acontece porque estes organismos têm a capacidade de utilizar a luz solar, o que representa uma vantagem competitiva. Mas até onde é que esta dominância se mantém? Em certas zonas do estuário do Rio Tejo, a franja em que as algas são mais abundantes que os animais, deve rondar os poucos centímetros, enquanto no Recife Dollabarat (Açores), o mesmo limite está para lá dos 50 metros de profundidade. É complicado sistematizar... Por outro lado, zonas superficiais que não estejam directamente expostas aos raios solares terão dominância duvidosa. Planos negativos ou zonas viradas a Norte (menos iluminadas) são silenciosos palcos de combate em que o território é a dama de plantas e animais.

A identificação das algas não é nada fácil. Em certos casos excepcionais, há especialistas que passam anos a debater a identificação de algumas algas e não chegam a um acordo. No entanto, há algumas regras que ajudam a separar o trigo do joio e facilitam a compreensão dos sistemas do ponto de vista da Ecologia. Em profundidade há uma estratificação das ocorrências, o que está, pelo menos parcialmente, relacionado com a capacidade de cada espécie de alga em utilizar na fotossíntese os comprimentos de onda de radiação solar que lhe chegam, depois da filtração e rarefacção que se vai dando ao longo da coluna de água.

Entre as que têm tendência a aparecer nas zonas menos profundas e mesmo na zona-entre-marés, citamos a alface-do-mar (Ulva sp.) e a Enteromorpha sp., duas algas verdes facilmente reconhecíveis: a primeira por constituir lâminas verde-vivo relativamente grandes e relativamente translúcidas e a segunda por formar tubinhos verdes ocos que no seu interior podem apresentar pequenas bolhas de oxigénio puro (produto da fotossíntese).


Ulva sp.
Foto de: F Cardigos ImagDOP


O Codium tomentosum é outra das algas verdes facilmente identificáveis debaixo de água.
Foto de: F Cardigos ImagDOP


O Codium elisabethae, apesar de pertencer ao mesmo género que C. tomentosum, tem uma forma completamente diferente, podendo a sua forma esférica atingir um diâmetro de 30cm.
Foto de: F. Cardigos ImagDOP

Avançando em profundidade, surgem as algas castanhas em força. Entre as que apresentam formas mais exóticas, podemos mencionar as laminárias, que não são nada frequentes nos Açores, a Padina pavonica ou a pequena Dictyota adnata.


Padina pavonica.
Foto de: RS Santos ImagDOP


Dictyota adnata.
Foto de: J Fontes ImagDOP

Finalmente as algas vermelhas, cuja variedade de formas é surpreendente. Entre as que um observador comum terá maior facilidade em reconhecer encontram-se as coralináceas (encrustantes e erectas), bem identificáveis pela sua firmeza calcárea e tons rosados, e a exótica Asparagopsis armata. Esta última é bem conhecida e odiada pelos mergulhadores, já que se fixa ao fatos através das estruturas em forma de arpão. Os biólogos europeus também não as apreciam muito, uma vez que se trata de uma alga trazida da Oceânia para as costas da Europa no início deste século, eventualmente nos cascos ou águas de lastro. O efeito que tem sobre as comunidades indígenas também continua por avaliar, mas é certo que apresenta um carácter quase infestante, durante algumas épocas do ano.


A alga Asparagopsis armata tem duas fases com morfologias completamente distintas - Falkenbergia (à esquerda) e Asparagopsis (à direita).
Fotos de: F Cardigos e J Gonçalves ImagDOP

Diversas algas são alvo de exploração comercial em Portugal, havendo mesmo comunidades de dezenas de pessoas que se dedicam a este tipo de apanha. Depois de secos, estes organismos são vendidos em grandes quantidades às indústrias farmacêuticas e alimentar. Hoje em dia, esta apanha está regulamentada. Durante os primeiros anos de crescimento exponencial desta actividade receou-se o pior. A exploração de um recurso na base de alguns processos ecológicos (por exemplo, de predação e reprodução) dos ecossistemas costeiros esteve em risco. As algas mais exploradas para a produção de agar são principalmente Gelidium sesquipedale (Portugal Continental) e Pterocladiella capilacea (Açores).


Pterocladiella capilacea.
Foto: F Cardigos ImagDOP

Esponjas

Não devemos andar sempre a tocar no fundo. Isso pode ter consequências graves para si, porque o organismo que tocar pode ser urticante, e para o ecossistema. Por outro lado, se os fundos marinhos estiverem sempre a ser tocados acabamos por destruir as suas estruturas. No entanto, as cores frequentemente vivas, a presença de ósculos (orifícios para a circulação de água) bem visíveis em muitas espécies, assim como uma escassa reação ao toque, podem ser bons indicadores para as esponjas. Quando se toca numa esponja ela deforma-se com a pressão do nosso toque, mas depois recupera graças à presença de espículas no seu corpo e/ou de fibras de espongina.

Se a identificação das algas ao nível da espécie é complicada, no caso das esponjas é complicadíssima. Há muitas espécies que apenas se identificam pela forma das suas espículas; sendo as espículas estruturas calcáreas ou siliciosas de suporte interno destes organismos, tipo esqueleto, que têm dimensões muito reduzidas. Para identificar é necessário isolar as espículas e, com a ajuda de um microscópio, estudar a sua morfologia, organização e tamanho.

A cor, forma e as dimensões das esponjas são muito variáveis, até dentro de uma mesma espécie. Para além de eventuais raízes genéticas, as principais causas desta plasticidade parecem estar ligadas ao conjunto de distintas condições abióticas em que cada indivíduo cresce. Sistematizar a identificação com base em formas e cores exteriores seria perigoso, mas algumas espécies mais fáceis de identificar podem ser apresentadas. Uma delas é a Petrosia ficiformis. Esta esponja é inconfundível pela dureza e forma contrastante em relação ao ambiente que a rodeia. Curiosamente, quando cresce em zonas afóticas (sem luz) ou oligo-fóticas (pouco iluminadas) possui cores esbranquiçadas. Quando se desenvolve em zonas fóticas (zonas iluminadas) adquire uma coloração castanho-avermelhada. Este fenómeno deve-se à simbiose entre esta esponja e cianobactérias (que dependem da realização de fotossíntese).


Petrosia ficiformis.
Foto de: F Cardigos ImagDOP

Outro exemplo interessante é a Aplysina aerophoba. Esta esponja de tons amarelos garridos fica negra quando exposta ao ar (em respeito pela vida marinha, não experimente, nós garantimos que é verdade). À semelhança doutros organismos, também algumas esponjas servem de hospedeiras a organismos especializados (uns parasitas, outros simbiontes) de dimensões mais reduzidas, que vivem sobre elas ou dentro do complexo de canais que formam a sua estrutura interna. O gastrópode Tylodina perversa, que se assemelha a uma pequena lapa amarela, é um dos organismos que se especializou em viver sobre a Aplysina aerophoba. O gastrópode utiliza a esponja como alimento e como local de depósito das suas posturas. A fauna interna das esponjas de maiores dimensões que habitam as nossas águas é ainda pouco conhecida, mas crustáceos e poliquetas deverão estar entre os principais “implicados”.


A esponja Aplysina aerophoba e o gastrópode Tylodina preversa são encontrados em conjunto devido à sua relação trófica.
Foto de: RS Santos ImagDOP

Cnidários

Os cnidários compreendem alguns organismos potencialmente perigosos. As espécies que vivem presas ao substrato (onde se incluem as anémonas) podem ser tão urticantes como os seus parentes de vida livre (onde se incluem as medusas). Entre estes últimos, um dos organismos de mais triste fama é a caravela-portuguesa Physalia physalis (como é móvel fica para a sequela deste artigo). Ao nível dos indivíduos puramente bentónicos (que vivem agarrados ao fundo), um dos mais “perigosos” que ocorrem nas nossas águas é a Alicia mirabilis. Esta anémona, que tem um inofensivo aspecto de uma couve-flor verde durante o dia, estende os seus tentáculos durante a noite de forma a capturar pequenas presas. Para o mergulhador mais distraído, esta pode ser uma armadilha muito desagradável.


Alicia mirabilis
Foto de: F Cardigos ImagDOP

O grupo das anémonas é, no entanto, muito variado e cheio de outras belezas mais agradáveis. Dentro do grupo das actínias, destaca-se a formosa Actina equina, relativamente comum desde as poças entre-marés até 5 metros de profundidade, bem como a pequena e multicolorida Corynactis viridis, que pode ocorrer abundantemente em planos verticais situados nos primeiros metros da coluna de água, em zonas submetidas a correntes. Outra anémona lindíssima é Parazoanthus sp. Esta anémona pode recobrir extensos planos negativos mesmo a baixa profundidade, gerando um esplêndido efeito de coloração amarelo-alaranjado.


Corynactis viridis
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Foto de: J Fontes ImagDOP


Parazoanthus sp.
Foto de: J Fontes ImagDOP

Ascídeas

Este grupo inclui alguns dos animais mais bonitos. As espécies mais comuns são coloniais, vivendo em grupos de algumas dezenas de indivíduos, cada um com não mais de 1 ou 2 centímetros. Basicamente, são constituídas por uma coluna, contendo uma rede filtradora de partículas orgânicas, e dois ósculos - um de entrada e outro de saída de água, a qual filtram para capturar partículas alimentares de natureza diversa. O aspecto delicado destes organismos, lembrando pequenos e deliciosos cálices de prazer visual, constituem, só por si, uma justificação para ir para dentro de água à descoberta. O melhor sítio para as encontrar é nas zonas com maior quantidade de partículas em suspensão. São organismos muito sensíveis e, talvez por isso, menos frequentes em zonas mais poluídas, embora a espécie Clavelina lepadiformis (uma das mais bonitas) seja por vezes encontrada em zonas portuárias. Por exigirem uma busca atenta, é natural que nem todos os mergulhadores tenham já reparado nestes animais, mas quando os descobrirem irão ficar mais uma vez fascinados com mais este presente que o mar tinha para lhe dar.

Uma fascinante espécie de ascídea que pode ser encontrada nos Açores é a Distaplia corolla. Proveniente da Bermuda, esta ascídea chegou à marina da Horta nas últimas décadas e, actualmente, colonizou já todas as ilhas do Grupo Central. Principalmente nos mergulhos nocturnos, é possível encontrá-la em conjunto com o nudibrânquio Berthelina engeli. A relação entre estes dois animais ainda é desconhecida e qualquer indicação no sentido de a desmistificar seria interesante.


Clavelina lepadiformis.
Foto de: RS Santos ImagDOP


A ascídea Distaplia corolla e o nudibrânquio Berthelina engelli terão alguma relação ecológica ?
Foto de: F Cardigos ImagDOP

Conclusão

Há muito mais para observar no mar do que peixes, polvos e grandes crustáceos. Se ainda não o fez, convém começar a parar e a reparar nas pequenas coisas que junto ao fundo são mais do que apenas cenário. O resultado será a abertura de um novo mundo cheio de cores e formas fascinantes, com algumas respostas surpreendentes para questões que ainda não se colocou e, avisamos já, segredos redobrados. Não se esqueça de transportar consigo uma lanterna, que o ajudará a melhor observar a beleza das “pequenas delicadezas escondidas no fundo”.

 

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Para saber mais

É sempre possível procurar na internet infomações sobre determinados grupos de espécies. Hoje em dia esse talvez seja o método mais simples, mas pode sempre recorrer aos métodos clássicos, consultando artigos científicos ou a guias de identificação. Aqui ficam algumas sugestões:

Cabioch, J., J.-Y. Floc'h, A. Le Toquin, C.-F. Boudouresque, A. Meinesz & M. Verlaque 1992. Guide des Algues des Mers d'Europe. Delachaux et Niestlé, Paris. 231p.
Este guia é muito bom para os mares que circundam a Europa, no entanto, a sua organização é um pouco confusa.

Morton, B., J.C. Britton & A.M.F. Martins 1998. Ecologia Costeira dos Açores. Sociedade Afonso Chaves, Ponta Delgada. 249p.
Este livro transmite valiosos conhecimentos sobre o funcionamento dos ecossistemas costeiros dos Açores. Obrigatório na preparação de estudos sobre ecologia na zona entre o supralitoral e o infralitoral dos Açores.

Neto, A. 1994. Checklist of the benthic marine macro algae of the Azores. Arquipélago Life and Marine Sciences. 12A: 15-34.
Este artigo tem uma listagem de todas as espécies de algas conhecidas nos Açores até 1994. A partir daqui é possível descobrir referências mais concretas para cada uma das espécies. Cópias deste número da Revista Arquipélago podem ser solicitadas directamente à Universidade dos Açores.

Saldanha, L. 1995. Fauna Submarina Atlântica. Publicações Europa-América. 364p.
Este guia tem a vantagem de ser abragente, começa nas algas (se bem que muito superficial neste tema) e acaba nos mamíferos marinhos, passando pelos invertebrados e peixes. Outra vantagem é estar escrito em Português.

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer: Madeira, Kanaren, Azoren (Invertebrates). Verlag. 247p.
Guia de invertebrados muito completo para os Arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores. Tem boas fotografias. Neste guia poderá também aprender alguns detalhes sobre a bio-ecologia de algumas espécies.

http://www.horta.uac.pt/species/Algae/
Página do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores dedicado à identificação de algas. Aqui poderá tirar algumas dúvidas na identificação de espécies. É uma página um pouco lenta porque se optou pela utilização de boas fotos em deterimento de um download rápido.

http://www.pg.raa.pt/oceanos
Para além de diversa informação, fotografias, vídeos e sons dos nossos mares, na página do Fórum Oceanos é possível colocar questões e obter respostas sobre qualquer tema marinho.


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Frederico Cardigos é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve e é Mestre em Gestão e Conservação da Natureza pela Universidade dos Açores. É bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, MAROV (PDCTM/P/MAR/15249/1999).

Fernando Tempera é Licenciado em Biologia Aplicada aos Recursos Animais Marinhos pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem trabalhado em projectos relacionados com Conservação Marinha no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç). É contratado pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, MAROV (PDCTM/P/MAR/15249/1999).

Rogério Ferraz é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve, encontrando-se a frequentar o Mestrado em Ciência e Sistema de Informação Geográfica do Instituto Superior de Estatística e Gestão de Informação da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente é contratado pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores, integrado no projecto OGAMP, financiado pelo Programa Europeu INTERREG III b (MAC/4.2/A2).