Alguns Invertebrados Marinhos dos Açores
Rogério Ribeiro Ferraz
Ao grupo dos invertebrados pertencem 95% das espécies animais descritas, ou seja, mais de 1 milhão de espécies diferentes, que se adaptaram a todos os ambientes existentes na Terra.
Por definição invertebrados são todos os animais (excepto os Protozoários) que não possuem coluna vertebral. A este grupo pertencem 95% das espécies animais descritas, ou seja mais de 1 milhão de espécies diferentes, que se adaptaram a todos os ambientes existentes na Terra. Contudo a maioria das espécies descritas são insectos (ca. de 850 mil espécies diferentes) que, apesar de terem um enorme sucesso em terra, praticamente não existem no mar.
Os invertebrados integram uma grande variedade de animais pluricelulares, que vão desde as esponjas, corais, anelídeos (minhocas), moluscos (por exemplo, búzios e lulas), artrópodes (ex. aranhas, lagostas e insectos) a equinodermes (ex. ouriços-do-mar). Dada a vastidão do tema, iremos falar-vos apenas de alguns dos invertebrados marinhos dos Açores já estudados no DOP e tentar mostrar algumas características que os tornam tão atractivos e ao mesmo tempo tão diferentes.
Esponjas
As esponjas (Filo Porifera) são os animais multicelulares mais primitivos, e inicialmente Aristóteles identificou-as como plantas. A natureza animal das esponjas foi descoberta em 1765 quando se observou que estes organismos possuem fluxos de água internos. O corpo destes animais é micro-perfurado por onde entra a água, que é exalada por uma ou mais aberturas maiores (estas últimas visíveis a olho nu). Este fluxo de água serve para que o animal se alimente das partículas em suspensão.
Para manterem a sua forma, as esponjas possuem um tipo de "esqueleto interno" constituído por espículas (pequenas estruturas com as mais variadas formas) que podem ser calcárias, de silício ou uma rede de fibras de espongina ou ainda uma combinação das anteriores. As mais conhecidas são as que possuem fibra de espongina porque são utilizadas como esponjas tradicionais para o banho. Os indivíduos da mesma espécie podem ter várias cores (Clathrina coriacea), e existem esponjas com formas para todos os gostos (uma forma diferente do exemplo anterior é a espécie Ciocalypta penicillus).
Clathrina coriacea - F Cardigos ImagDOP
Águas-vivas, corais e anémonas
Todos estes animais pertencem ao Filo Cnidaria, cujos membros são caracterizados por possuírem células urticantes especializadas (cnidoblastos). Os cnidoblástos são utilizados, como se fosse algo entre um arpão e uma agulha, para caçarem as presas paralizando-as (há muito que a caça submarina com arpão foi inventada).
O corpo destes animais é muito simples (não possuem sistema circulatório ou excretor) e tem a forma de um saco composto por duas camadas de células (endoderme interna e ectoderme externa) separadas por uma camada gelatinosa (mesogleia).
Águas-vivas (alforrecas e medusas)
As medusas representam a fase de vida livre dos cnidários, fazendo lembrar seres alienígenas. O corpo de algumas espécies é constituído em mais de 90% por água, o que confere a transparência característica destes organismos. Dois exemplos são a água-viva Pelagia noctiluca e a caravela-portuguesa Physalia physalis (embora esta seja uma falsa medusa), ambas são perigosas por as células urticantes poderem causar ferimentos mais ou menos graves.
Pelagia noctiluca - R Patzner ImagDOP
Physalia physalis - RS Santos ImagDOP
Corais e anémonas
Ao ouvirmos falar em corais lembramo-nos dos mares tropicais com grandes barreiras destes animais. Nos Açores isso não acontece, no entanto é possível encontrar algumas espécies menos vistosas do que as que formam as barreiras. As anémonas não possuem fase medusa e são animais facilmente vistos durante a maré baixa (Actinia equina) ou mais dificilmente a bela Alicia mirabilis que durante o dia encontra-se recolhida, para à noite, enquanto se alimenta, mostrar toda a sua beleza.
Alicia mirabilis - F Cardigos ImagDOP
Moluscos
Este Filo é o segundo maior do Reino Animal, sendo apenas ultrapassado pelo dos artrópodes. Nele se incluem animais com as mais variadas formas (polvos, lulas, lapas, búzios, nudibrânquios e amêijoas). Os animais deste filo estão adaptados a todos os ambientes marinhos, e o corpo é constituído por quatro partes (cabeça, pé, manto e saco visceral) que podem, na maioria dos casos, ser facilmente distinguidas.
Gastrópodes
O corpo é constituído por uma cabeça bem desenvolvida e um pé largo, e o animal pode ou não possuir uma única concha. Devido à beleza das suas conchas, existe um grande interesse por estes animais por parte de coleccionadores. A esta classe pertencem organismos como as lapas (Patella spp.), os búzios (Charonia lampas), as vinagreiras e os nudibrânquios (Tambja ceutae).

Pattella ulyssiponensis aspera - RS Santos ImagDOP
Tambja ceutae - R Patzner ImagDOP
Bivalves
São animais filtradores (alimentam-se filtrando a água) que possuem o corpo protegido por uma concha formada por duas valvas (direita e esquerda) quase sempre simétricas unidas por um ligamento e uma charneira. A este grupo pertencem as ostras, as ameijoas e os mexilhões. As conchas podem ter as mais variadas formas, ser maciças e fortes (ex. Pinna rudis) ou finas e delicadas.
Cefalópodes
São considerados os moluscos mais evoluídos. A sua forma pode ser cilíndrica em forma de saco. O pé subdividiu-se em braços e tentáculos (10 para as lulas e chocos e 8 para os polvos) providos de ventosas. Podem ou não possuir uma concha e esta é geralmente interna. No mar dos Açores existem cefalópodes desde algumas gramas até às centenas de quilos (lulas e polvos de profundidade), mas aquele que mais frequentemente se encontram nas zonas litorais (junto à costa) é o polvo-comum (Octopus vulgaris).
Octopus vulgaris - RS Santos ImagDOP
Crustáceos
Os crustáceos fazem parte dos artrópodes que é o maior Filo Animal. À classe dos crustáceos pertencem, por exemplo, os perceves, as cracas, os caranguejos, os camarões, as lagostas e os cavacos. Estes animais caracterizam-se por possuirem o corpo coberto por um exoesqueleto quitinoso rígido, com apêndices articulados pares e por apresentarem um sistema nervoso bem desenvolvido.
Cirrípedes
São animais sésseis, e a esta subclasse pertencem as cracas (Megabalanus azoricus) e perceves, quando adultos têm o exoesqueleto calcificado composto por várias placas. A espécie Megabalanus azoricus deve o seu nome ao facto de ter sido originalmente descrita para os Açores. Posteriormente foi identificada noutros locais como, por exemplo, no Arquipélago da Madeira.
Megabalanus azoricus - RS Santos ImagDOP
Decápodes
Os decápodes possuem a cabeça e o tórax fundidos (carapaça), mas o abdómen é bem definido. A esta ordem pertencem as lagostas, os cavacos (Scyllarides latus), caranguejos, como as santolas e as sapateiras, e as inúmeras espécies de camarões.
Scyllarides latus - J Fontes ImagDOP
Equinodermes
Os equinodermes são exclusivamente marinhos constituindo o grupo de invertebrados mais aparentados com os cordado. O corpo pode ser globular, como nos ouriços-do-mar, ou possuir extremidades mais ou menos bem definidas, como nas estrelas-do-mar.
Estrelas-do-mar
Possuem o corpo achatado e normalmente têm 5 braços formando, como o próprio nome indica, uma estrela (ex. Ophidiaster ophidianus). Não é difícil encontrar estrelas-do-mar sem um ou mais braços, que são mais tarde regenerados. A perda dos braços é, normalmente, causada por predação de outras espécies que se alimentam de estrelas (ex. búzio - Charonia lampas).
Ophidiaster ophidianus - J Gonçalves ImagDOP
Charonia lampas preda Ophidiaster ophidianos - F Cardigos ImagDOP
Ouriços-do-mar
Os ouriços-do-mar (ex. Sphaerechinus granularis) possuem um esqueleto calcário (carapaça) que pode ser esférico ou apresentar uma forma mais complexa. Possuem numerosos espinhos externos (daí a origem do nome comum) que os protegem dos predadores e que podem ser mais ou menos longos.
Sphaerechinus granularis - J Gonçalves ImagDOP
Holotúrias ou pepinos-do-mar
São equinodermes que não possuem espinhos e têm uma forma tubular, podendo ser encontradas em quase todos os tipos de fundo. Algumas espécies, quando são perturbadas, ejectam uma massa filamentosa denominada por "tubos de Cuvier", e há espécies que, quando muito perturbadas ou sob grande stress, ejectam mesmo os intestinos. Uma das espécies mais frequente nos Açores é a Holothuria forskali.
Holothuria forskali - J Fontes ImagDOP
Ascídias (tunicados)
Os animais pertencentes à classe Ascideacea fazem parte do Filo Chordata (animais que possuem um cordão dorsal - notocorda). As ascídias possuem notocorda apenas na fase larvar. A este Filo também pertencem os peixes, no entanto as ascídias são colocadas no grupo dos invertebrados por não possuírem coluna vertebral.
As ascídias são animais sésseis no estado adulto, e vivem fixos às rochas ou a outros organismos. Estes animais, que vivem isolados ou em colónias, têm o corpo rodeado por uma túnica gelatinosa. Estes animais são hermafroditas, e alimentam-se das partículas em suspensão que capturam com as brânquias no fluxo de água que geram internamente. As espécies Distaplia corolla e Clavelina lepadiformis são fáceis de encontrar junto aos portos dos Açores, principalmente dos que possuem marinas. Existem evidências de que estas espécies foram acidentalmente introduzidas, chegando ao arquipélago fixas aos cascos dos barcos ou no lastro de navios.
Distaplia corola - F Cardigos ImagDOP
Clavelina lepadiformis - RS Santos ImagDOP
Guias de Identificação recomendados
Moosleitner, H. & R. Patzner. 1995 Unterwasserführer Mittelmeer Niedere Tiere. Vol. 4. Delius Klasing Edition Naglschmid. 214 pp. ISBN: 3-89594-000-3.
Saldanha, L. 1995. Fauna Submarina Atlântica Portugal continental, Açores e Madeira. Publicações Europa-América. 364 pp. ISBN: 972-1-03875-X.
Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer Madeira / Kanaren / Azoren Niedere Tiere. Vol. 9. Delius Klasing Edition Naglschmid. 247 pp. ISBN: 3-89594-014-3.
Bibliografia recomendada
Barnes, R. D. 1987. Invertebrate Zoology. W. B. Saunders company. 893 pp. ISBN: 0-7216-1562-7.
Meglitsch, P. A. 1981. Zoologia de Invertebrados. H. Blume Ediciones. 906 pp. ISBN: 84-7214-132-2.
Biografia
Rogério Ribeiro Ferraz é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Actualmente é bolseiro do IMAR Instituto do Mar, no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, num projecto de apoio à gestão dos pequenos recursos costeiros de invertebrados dos Açores (RIVA), financiado pelo Governo Regional dos Açores. Pertence ao Secretariado Redatorial da revista científica da Universidade dos Açores Arquipélago Life and Marine Sciences, sendo o responsável pela edição gráfica. O seu principal objectivo profissional é contribuir para a exploração sustentada de todos os recursos marinhos. E-mail: ferraz@horta.uac.pt
Exemplos de espécies que se podem encontrar no mar dos Açores através de mergulho em apneia ou com escafandro autónomo
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Filo |
Nome científico |
Nome Comum |
Características |
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Porifera |
Clathrina coriacea |
Esponja |
Com a forma típica de uma esponja pode ser amarela, amarelo-claro, salmão ou cor-de-rosa. |
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Ciocalypta penicillus |
Esponja-de-estalagmites |
Esponja incrustante dissolve a rocha com um ácido a parte visível é apenas "a ponta do iceberg". |
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Cnidários |
Pelagia noctiluca |
Água-viva |
Conhecida nos Açores por água-viva. As células urticantes quando são tocas de noite tornam-se fosforescentes. |
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Physalia physalis |
Caravela-portuguesa |
Conhecida como caravela-portuguesa. Pode ser encontrada a muitas milhas de terra. Os tentáculos, quando tocados deixam marcas idênticas a queimaduras. |
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Actinia equina |
Actinia |
Esta anémona é fácilmente encontrada durante a maré-baixa, e quando está fora de água tem os tentáculos retraidos para não perder água. |
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Alicia mirabilis |
Alícia |
Esta anémona só se encontra totalmente expandida de noite, altura em que se alimenta. |
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Moluscos |
Patella aspera |
Lapa-brava |
Esta lapa é hermafrodita protândrica, ou seja no início da vida é macho e quando atinge cerca de 4 cm muda de sexo para fêmea. |
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Tambja ceutae |
Lesma-do-mar-de-Gibraltar |
Este é um dos nudibrânquios que pode ser visto em mergulho, no entanto, é necessário procurar com muita atenção por serem muito pequenos. |
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Pinna rudis |
Leque |
É o maior bivalve que se pode encontrar nos Açores, podendo atingir 80 cm de comprimento da concha. |
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Charonia lampas |
Buzina |
A concha deste gastropode pode atingir os 30 cm de comprimento. Além de estrelas-do-mar a buzina alimenta-se também de pepinos-do-mar. |
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Octopus vulgaris |
Polvo-comum |
O vulgar polvo-comum que possui uma grande capacidade de passar por locais estreitos graças à enorme maleabilidade que possui. |
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Artrópodes |
Megabalanus azoricus |
Craca |
Esta craca apesar de ser um animal fixo utiliza a cópula para se reproduzir, para isso o macho possui um pénis de dimensão considerável. |
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Scyllarides latus |
Cavaco |
O cavaco, que efectua uma migração vertical anual para se reproduzir no verão encontra-se a menores profundidades (0 / 40 m) e no inverno desce para profundidades entre os 70 e 75 m. |
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Equinodermes |
Ophidiaster ophidianus |
Estrela-do-mar |
Esta estrela-do-mar tem uma cor vermelha muito forte a sua superfície possui um aspecto aveludado. |
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Sphaerechinus granularis |
Ouriço-do-mar-de-espinhos-curtos |
A coloração destes ouriços pode ser muito variada (lilás, castanhos, amarelos ou brancos) |
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Holothuria forskali |
Pepino-do-mar |
Alimenta-se dos detritos que encontra. Pode atingir os 35 cm de comprimento máximo. |
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Ascídias |
Distaplia corolla |
Ascídea-flor |
Este tunicado é facilmente visto devido à sua cor laranja forte; tem a forma de uma coroa |
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Clavelina lepadiformis |
Ascídea-de-anéis-brancos |
É uma ascídia quase transparente, muito pequena (2 a 3cm) e de aspecto delicado que se encontra normalmente em locais abrigados. |