Os Cetáceos e a Educação Ambiental
por: Rui Prieto
A nossa espécie entrou no século XX com uma população de cerca de mil milhões de habitantes e com a biodiversidade - total de genes, espécies e ecossistemas - provavelmente num dos seus melhores momentos. Os recursos biológicos estavam livremente disponíveis para uma exploração que suportasse o desenvolvimento. No fim deste século e do milénio, com uma população global próxima dos seis mil milhões de habitantes, estamos finalmente a perceber que os recursos biológicos têm limites e que estamos a excedê-los largamente.
No entanto, o próprio termo (e conceito) "Biodiversidade" é muito recente, com pouco mais de dez anos. Até muito recentemente não tínhamos percebido quão importante é modificarmos o relacionamento com o meio-ambiente, necessidade esta que assume uma urgência cada vez maior, conforme aumenta a degradação ambiental.
Lentamente, os governos, a indústrias, agências de desenvolvimento e o público em geral estão a tonar-se progressivamente mais preocupados com a destruição dos recursos naturais, compreendendo que o desenvolvimento depende na sua manutenção sustentável.
No entanto, esta consciencialização é um processo lento que ainda é insuficiente para inverter a tendência crescente de destruição do ambiente. A urgência em atingir um nível de consciencialização e modificação da nossa atitude, quer individualmente, quer socialmente, faz com que seja necessário tornar compreensível a todos os sectores da sociedade a importância da preservação do património natural tanto a nível local como mundial.
A este processo de sensibilização convencionou-se nos últimos anos chamar "educação ambiental" (EA), que tem conhecido uma grande difusão e um desenvolvimento constante em todas as suas vertentes. Um dos problemas da EA é que frequentemente é difícil conseguir explicar conceitos relativamente complexos e muitas das vezes enfadonhos de uma forma simples e atractiva, que no entanto seja eficaz. Neste aspecto, os cetáceos são uma ferramenta valiosa, visto despertarem o interesse do público por uma série de factores. Exemplos utilizando estes animais são facilmente extrapoláveis para outras espécies e ambientes menos emblemáticas, facilitando assim a introdução a conceitos e a abordagens mais complexas.
O que torna os cetáceos numa excelente ferramenta de EA é o facto de serem extremamente populares e um símbolo de conservação na cultura ocidental. A sobre-exploração dos grandes cetáceos, nomeadamente baleias de barbas e cachalotes, desencadeou uma campanha consertada de conservação destes animais que teve o seu auge entre os anos 70 e 80, e que resultou na sua "mediatização". Rapidamente a popularidade das grandes baleias estendeu-se aos pequenos cetáceos, também confrontados com graves problemas de conservação em várias áreas.
A criação de uma imagem, discutível em alguns dos seus
pontos, que caracteriza os cetáceos como seres altamente desenvolvidos,
com uma sociedade especialmente complexa e organizada, portadores de uma inteligência
comparável à humana, amistosos e brincalhões foi muito
bem sucedida tornando-os emblemáticos e em algumas vertentes da sociedade
quase (e por vezes mesmo) místicos.
A popularização dos cetáceos facilitou a sua investigação
científica, que sofreu um crescimento substancial. Esta investigação
veio aumentar ainda mais o interesse suscitado por estes animais junto do público.
(VMG: Seria bom incluir aqui um "sorriso" de golfinho, penso que o Luís Quinta terá boas imagens deles)
Em pouco mais de duas décadas os cetáceos passaram de animais
quase desconhecidos e pouco compreendidos pela população em geral,
para símbolos de conservação do meio ambiente. As campanhas
foram tão bem sucedidas que os governos de vários países
sentiram-se pressionados a alterar a sua posição quanto à
exploração, directa ou não, destes animais e criar medidas
para a sua conservação.
Hoje esta imagem dos cetáceos está de tal forma enraizada na cultura
popular ocidental que os torna objecto de um interesse que não é
comum a muitos outros grupos biológicos. As palavras "golfinho"
e "baleia" tornaram-se em fórmulas mágicas, que quase
sempre significam a garantia de uma audiência atenta.
Exemplos com cetáceos constituem uma óptima maneira de ilustrar erros de gestão da Natureza, e abrangem quase todas as áreas de conflito entre o Homem e o Ambiente.
Sobre-exploração.
A sobre-exploração dos recursos naturais é um fenómeno
que actualmente afecta actividades económicas importantes e tão
diversas como a pesca ou as explorações florestais. Há
diversos exemplos das consequências catastróficas deste erro, mas
poucos serão tão bem documentados e apelativos como a baleação.
Até o advento da Revolução Industrial a baleação concentrou-se somente nas espécies mais lentas e facilmente capturáveis, como as baleias-francas e os cachalotes. No entanto a criação de embarcações mais rápidas, e a melhoria das técnicas de captura (nomeadamente a invenção dos arpões explosivos lançados por um canhão, e meios de manutenção das carcaças à superfície) possibilitaram a expansão da baleação para espécies até então poupadas (os rorquais) e uma maior taxa de capturas das espécies já exploradas. O posterior desenvolvimento de navios-fábrica eliminou a necessidade do transporte das carcaças dos animais capturados para o processamento em terra, aumentando a produtividade da baleação para níveis nunca antes imaginados.
O resultado destas inovações tecnológicas foi a depleção sucessiva dos mananciais de grandes baleias, levando algumas espécies quase à extinção. O padrão de um rápido crescimento das capturas de uma espécie até quase à sua extinção comercial, repetiu-se numa sucessão de espécies de acordo com o seu valor comercial decrescente, até à criação de uma moratória à caça de todas as espécies de baleias imposta pela Comissão Baleeira Internacional em 1982.
Degradação de habitats
A degradação de habitats é um dos maiores problemas
de conservação para o segundo milénio, mas de difícil
solução. A intervenção humana provoca a transformação
dos habitats trazendo consequências normalmente nefastas à maior
parte das espécies com que estão relacionados.
No caso dos cetáceos, são inúmeros os exemplos. Desde poluição
à transformação física dos habitats, muitas são
as actividades humanas que põe em perigo a conservação
de várias espécies. Um dos maiores problemas com que se confrontam
actualmente a maioria dos golfinhos de rio é a diminuição
do seu habitat. A construção de barragens reduz a extensão
útil dos rios para estes animais, levando a uma progressiva diminuição
das populações. É claro que este e outros problemas de
destruição de habitats não afectam sómente os cetáceos,
sendo gerais para todas as espécies que dependem deles, por vezes a centenas
de quilómetros de distância das barragens ou qualquer outra influência
causadora da alteração.
A utilização dos cetáceos em EA não precisa necessariamente se prender com a degradação ambiental. A exemplificação com cetáceos torna mais simples e atractiva a compreensão de conceitos de ecologia e gestão ambiental, que estão na base de uma EA robusta e efectiva.
A ecologia, que á a ciência que, na definição mais clássica, trata das relações entre os organismos e o meio circundante, e que está recheada de conceitos e modelos matemáticos muitas das vezes bastante difíceis de compreender sem recorrer a exemplos muito claros. Como se poderá verificar a seguir, os cetáceos fornecem esse tipo de exemplos para muitos destes conceitos.
Por exemplo, as baleias podem servir para ilustrar os conceitos de transferências energéticas ao longo dos níveis tróficos. Quanto mais níveis tróficos houver no ecossistema mais energia se perde - cerca de 90% da energia é perdida entre cada degrau trófico em consequência de actividades como o aquecimento corporal ou a actividade motriz e outras. Assim, as enormes massas corporais das baleias, e das suas populações, só é possível porque se alimentam directamente de algumas espécies de "krill" (uns crustáceos parecidos com pequenos camarões), que são consumidores primários. Uma baleia azul, que é o maior animal que jamais habitou o planeta Terra e que deverá consumir entre 2 a 3 toneladas de alimento diariamente, não poderia existir se se alimentasse na mesma quantidade de animais de níveis tróficos mais elevados, dado que o ecossistema não teria recursos energéticos que o permitissem.
(VMG: introduz aqui uma foto de baleia - talvez a sardinheira - com a legenda: Alimentar os grandes cetáceos exigiu da Natureza um estratagema genial.)
A conservação da biodiversidade inclui também conceitos económicos, uma vez que está intimamente relacionado com o desenvolvimento das actividades económicas humanas. O conceito de atribuir um valor económico, directo ou indirecto a organismos e ecossistemas é por vezes difícil de compreender e aplicar.
Neste caso os cetáceos também são um excelente exemplo.
Se durante séculos o valor dos cetáceos estava na sua captura,
este panorama tem vindo a alterar-se nas últimas décadas e o seu
valor tem sido transferido para uma exploração não letal,
em que o objectivo é a observação. A indústria de
observação de cetáceos em estado selvagem tem crescido
continuamente, gerando lucros também crescentes. Em 1994 cerca de 65
países tinha algum tipo de observação de cetáceos
a decorrer, e 5.4 milhões de pessoas tinham ido observar cetáceos
a nível mundial. Nesse ano estima-se que a actividade tivesse gerado
directamente 122.4 milhões de dólares e cerca de 504.3 milhões
de dólares no total (gastos nas viagens, na comida, hotéis, lembranças,
etc., além das próprias viagens de observação de
cetáceos).
Este é um óptimo exemplo do valor intrínseco dos organismos
(neste caso um valor comercial quantificável) e de como as actividades
podem ser transformadas para se tornarem sustentáveis, sem perderem a
sua rentabilidade.
Estas são algumas das formas como os cetáceos podem ser úteis na Educação Ambiental, tornando-a mais aliciante. Mas não são as únicas e nem os cetáceos são a única forma de a fazer. Fica entregue à imaginação de cada um a mais fantástica forma de fazer com que se compreenda que a humanidade e a natureza são um só !
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Para saber mais sobre os Cetáceos e a Educação Ambiental poderá consultar diversas entidades através da Internet:
Fórum Oceanos - http://www.pg.raa.pt/oceanos. Página do Governo Regional dos Açores dedicada à discussão de assuntos relacionados com os Oceanos.
Instituto para a Conservação da Natureza - http://www.icn.pt - Página oficial do ICN.
Zoomarine de Albufeira - http://www.zoomarine.com - Atenção à página de educação ambiental.
Sea World - http://www.seaworld.com - Página do mais famoso aquário do mundo. Tem muita informação útil.
Dolphin Quest - http://www.dolphinquest.org/ - Página de uma rede de aquários com muita informação interessante.
European Cetacean Society - http://web.inter.nl.net/users/J.W.Broekema/ecs/ - A ECS é uma associação com cariz científico, mas aberta a quem estiver interessado em colaborar.
Comissão Baleeira Internacional (ICW) - http://ourworld.compuserve.com/homepages/iwcoffice/ - Contém informação sobre o funcionamento desta instituição
Comissão Internacional para a Exploração dos Oceanos (ICES) - http://www.ices.dk/ - Tem muita informação sobre pesca, poluição e outros assuntos relacionados com a exploração dos Mares.
International Fund for Animal Welfare (IFAW) - http://www.ifaw.org/ - Organização não-governamental de conservação da natureza. Têm realizado muito trabalho sobre cetáceos, inclusivamente em Portugal.
North Atlantic Marine Mammal Comission (NAMMCO) - http://www.nammco.no/ - A NAMMCO é uma comissão intergovernamental para o estudo e conservação de mamíferos marinhos do Atlântico Norte.
Society for Marine Mammalogy (SMM) - http://pegasus.cc.ucf.edu/~smm/ - Sociedade de cariz científico Norte Americana. Contém muita informação interessante.
Whale Net - http://whale.wheelock.edu/ - Projecto que alia investigadores de mamíferos marinhos à educação nas escolas primárias e secundárias. Altamente recomendável. Em processo de tradução para o Português.
Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores - http://www.horta.uac.pt - Página oficial do DOP dedicado à Investigação marinha.
Outros endereços http://whales.magna.com.au/links.html - página com mais de 200 links a outras páginas sobre mamíferos marinhos.
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Nos Açores a investigação de Cetáceos está intimamente ligada ao Projecto MARÉ. Este projecto financiado pela comunidade europeia pretende, seguindo uma metodologia complexa, elaborar planos de gestão para Sítios considerados, pela União Europeia e pelo Governo Regional dos Açores, com Interesse para a Conservação (SIC).
Especificamente em relação aos cetáceos, este projecto pretende construir uma base de dados com uma compilação das populações das diferentes espécies e monitorizar as consequências do aumento da pressão turística. É dada uma atenção especial à espécie Tursiops truncatus (roaz corvineiro) visto que esta espécie está incluída no Anexo II da directiva Habitats da União Europeia. Os dados obtidos serão utilizados para calcular a capacidade de carga da actividade de Observação de Cetáceos e para a elaboração e implementação de medidas de gestão integradas.
Pode visitar a página do Projecto MARÉ em: http://www.horta.uac.pt/projectos/LIFE
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Este artigo resulta de uma comunicação apresentada por Rute Cabecinhas e Rui Prieto no 10º Encontro Nacional de Educação Ambiental realizado em simultâneo com o 2º Encontro Regional de Educação Ambiental dos Açores. Este encontro reuniu mais de três centenas de ambientalistas durante 1 a 5 de Outubro de 1999 nas ilhas do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge). A organização conjunta entre a Direcção Regional do Ambiente, o Instituto de Promoção Ambiental, o Parque Ecológico Municipal de Gaia, a Câmara Municipal da Horta e a ONG Azorica, contou também com o apoio da Universidade dos Açores, e permitiu a discussão entre Açorianos, Madeirenses e Continentais dos métodos e do futuro da Educação Ambiental no nosso país.
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Rui Prieto - Biólogo do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores integrado no Grupo Estudos em Cetáceos. Coordenador científico da Rede de Arrojamentos de Cetáceos dos Açores. É licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve.