Caçar em Consciência

Por : Frederico Cardigos, Telmo Gomes e João Pedro Barreiros

 

Este artigo vem na sequência de um anterior, publicado nesta revista em Maio de 2001. Nesse artigo, fizemos uma revisão do conhecimento biológico sobre as presas típicas da caça submarina, tendo em vista a sua preservação. Porque já passou algum tempo, o que implicou alguma evolução no conhecimento cientifico, porque houve alguma alteração nos alvos preferenciais do caçador submarino e porque nem toda a gente interessada teve acesso a esse artigo de 2001 aqui vai uma segunda versão. Para além destas razões, o sobejamente conhecido caçador Armando Maçanita reforçou o interesse deste tema dando, inclusivamente, indicações sobre os temas a abordar em maior detalhe. Este não é um artigo “fechado”; logo que haja nova informação a listagem apresentada será novamente actualizada.

 

Reprodução

Porque é que a época de reprodução pode ser particularmente importante? Simplesmente, porque os animais estão mais vulneráveis. Analisemos o exemplo do badejo. Este peixe durante a época de reprodução fará guarda ao seu harém. Portanto, caso algum caçador submarino se aproxime dele durante o período reprodutor, não terá qualquer mérito na sua captura; visto o badejo aproximar-se do caçador para o afastar do seu harém, matá-lo é como matar um pai extremoso.

Por azar, a época de reprodução pode variar de local para local. É fácil de compreender que, sendo a estação quente a privilegiada para a reprodução de uma determinada espécie, esta ir-se-á reproduzir nos meses complementares nos dois hemisférios. Para além destas diferenças globais, existem diversas nuances locais. O bom caçador submarino é aquele que sabe quais são as épocas de reprodução das espécies que está a tentar capturar ou entende o comportamento do animal e evita matar animais em fase de reprodução.

Claro que alguns poderão argumentar que a captura de alguns animais, mesmo na época de reprodução, não colocará em risco a espécie ou sequer a população. Isso é verdade em relação à maioria das espécies, mas não para todas. Os grandes serranídeos como os meros, os badejos e as garoupas gigantes (não há em Portugal) são particularmente vulneráveis. Numa das ilhas dos Açores são conhecidos os locais de agregação reprodutiva de badejos e até se sabe quem foram os caçadores submarinos que as destruíram. Nesse período ainda não se conheciam as implicações de tais actos, mas hoje isso seria inadmissível.

 

Tamanhos mínimos

É importantíssimo falar em tamanhos mínimos. Cada indivíduo tem um património genético; isto é, tem uma individualidade que fomenta a diversidade e que aumenta as respostas possíveis da espécie em relação a qualquer fenómeno adverso. Posto ainda de outra forma, a pequena diferença que cada organismo, ao ser concebido, apresenta é preciosa para a evolução da espécie. Aniquilar um animal antes de este ter a oportunidade de perpetuar o seu património genético é imoral.

Claro que se este animal morrer de morte natural (doença ou deformidade) ou for predado antes de se reproduzir é apenas vítima da selecção natural. No entanto, se for capturado pelos seres humanos, isso não tem nada de natural. Por estas razões, é importante preservar os animais até que estes tenham oportunidade de se reproduzir pelo menos uma vez.

Antigamente, referia-se também que, ao permitir pelo menos uma reprodução, se estaria a preservar a população. Hoje em dia, em relação à maioria das espécies de peixes, já se pensa de uma forma diferente. É que estes animais têm a capacidade de melhorar em muito a capacidade reprodutiva conforme a idade. Isto é de tal forma verdade que matar um animal muito velho pode ser, em relação à reprodução, centenas de vezes mais danoso. Daí chegarmos a outro dos pontos importantíssimo do caçar em conciência: as Áreas Marinhas Protegidas.

 

Áreas Marinhas Protegidas

Em Portugal não há muitas áreas marinhas protegidas. De facto, segundo o Doutor Callum Roberts, cerca de 20 a 30% do território marinho de Portugal deveria estar protegido em relação às actividades extractivas (pesca, caça, extracção de areia, etc). Digamos que esta é a opinião de um investigador com enorme experiência a nível mundial, mas sem um conhecimento particular sobre Portugal, daí não dar uma indicação precisa, mas sim uma resposta geral. Claro que em Portugal não há qualquer área marinha significativa (de grandes dimensões) que esteja reservada e, aquelas que o estão não têm fiscalização eficiente, portanto, também não contam. Lamentavelmente, está quase tudo por fazer...

Claro que o referido não inviabiliza que as zonas declaradas como Áreas Marinhas Protegidas sejam respeitadas. Antes pelo contrário, uma Área Marinha Protegida (com estatuto de Reserva) deveria ser para qualquer ser humano um santuário de contemplação. Zonas abertas para todos podermos observar a natureza tão perto quanto possível da criação (passe o exagero).

A grande vantagem é que os animais, nessa zona, poderão crescer até às dimensões que a mãe natureza e a selecção natural o permitirem. Aqueles que conseguirem chegar a um porte elevado terão a oportunidade de se reproduzir e espalhar a sua prole pelas zonas contíguas e assim contribuir grandemente para a continuação das populações e alimentar as actividades extractivas nas zonas fronteiras à reserva. É fundamental também que se criem pequenas reservas integrais estrategicamente dispostas em lugares de fácil vigilância, bem como um esquema de reservas temporárias (por ex. anuais) que vão rodando ao longo de determinadas faixas do litoral.

 

As espécies

A seguir, apresentam-se as características de algumas das espécies mais importantes para a caça submarina. Sempre que possível indicamos o peso (visto ser a característica mais utilizada na caça submarina) e a dimensão em comprimento standart. Este comprimento é também chamado de comprimento padrão e é medido desde a zona anterior da cabeça até ao pedúnculo caudal (entre o corpo e o início da barbatana caudal). A sublinhado encontram-se as consideradas alvos preferenciais pela comunidade de caçadores submarinos e "C", "M" e "A" significam a ocorrência no Continente, Açores e Madeira, respectivamente. As espécies mencionadas no Livro Vermelho merecem alguma preocupação em relação à sua conservação.

Abrótea, Phycis phycis (C, M, A). Esta espécie pode atingir 65 cm de comprimento (cerca de 4.5kg). Só está pronta para a reprodução aos quatro anos, quando atinge cerca de 540g. Em nossa opinião o peso mínimo válido para provas de caça submarina deveria ser de 600g. A título de curiosidade, refira-se que uma abrótea pode viver 15 anos.
A actividade deste peixe concentra-se durante a noite. Isso significa que durante o dia está dentro de pequenas ou grandes grutas a dormitar. Quando disparamos sobre este animal estamos a fazê-lo sobre um animal que está a dormir (visto que a prática da caça é proíbida durante a noite).
Citada no livro vermelho dos vertebrados com o estatuto CT (comercialmente ameaçada) para os Açores.

Anchova, Pomatomus saltatrix (C, M, A). Este peixe, que pode atingir 14kg (aos 9 anos de idade), embora hajam registos não oficiais com maior peso. Atinge a maturação quando tem 2 anos (cerca de 300g ou 31cm).

Badejo, Mycteroperca rubra (C) Mycteroperca fusca (M, A). A confusão com o mero é possível. Debaixo de água o mero tem tons mais acastanhados e o badejo mais acinzentado. Por outro lado, o badejo é mais estreito, tem um prognatismo do maxilar inferior mais acentuado e as barbatanas caudais são também diferentes. A ser autorizada nas provas de caça submarina, a captura destas espécies deveria ter um período de defeso durante a reprodução (Julho e Agosto), e um peso mínimo de 5kg.
O badejo dos Açores está citado no Livro Vermelho com o estatuto indeterminado, pelo que “se impõem medidas de protecção à espécie” e mais estudos sobre a sua biologia e ecologia.


Imagem de badejo Mycteroperca fusca (F Cardigos ImagDOP) e mero Epinephelus marginatus (foto: J Fontes ImagDOP).

Bicuda, Sphyraena sphyraena (C) e Sphyraena viridensis (M, A). Há quem denomine estas espécies por “barracudas”. O peso de primeira maturação é de cerca de 850g. O peso mínimo de captura deverá ser de 1kg. A sua longevidade é de 14 anos.

Bodião. Na realidade os bodiões são peixes da Família Labridae. Nesta incluem-se, entre outras, o bodião-vermelho (Labrus bergylta), o bodião-verde (Centrolabrus caeruleus) e o peixe-cão (Bodiannus scrofa).

Bodião-vermelho, Labrus bergylta (C, M, A). No Continente também é denominado de “Balão de Sto. António” ou “Margota”. O padrão cromático desta espécie é muito variável. Nos indivíduos do Continente apresenta um ponteado muito evidente, mas este padrão não é tão claro nas populações Açoreanas. Esta espécie tem a sua idade de primeira maturação quando atinge cerca de 550g, logo não deverá ser capturada quando pesar menos do que isso. Nos Açores a maturidade é atingida quando os animais têm uma dimensão inferior, pelo que são aconselháveis capturas de animais antes dos 260g (25cm). Em termos globais, atinge a maturidade entre os 7 e os 9 anos e a sua longevidade é de 29 anos.

Bodião-verde, Centrolabrus trutta (C) e Centrolabrus caeruleus (M, A). Esta espécie atinge a primeira maturação aos 12cm. A espécie da Madeira e dos Açores só foi descrita recentemente. Esta é uma daquelas espécies que constrói um ninho com pedaços de pequenos detritos que transporta na boca em longas viagens. Não deverá ser considerada uma espécie-alvo. Durante o período reprodutivo é extraordinariamente sensível.

Castanheta, Abudefduf luridus (M, A). Presa de caçadores submarinos muito amadores. Esta espécie faz guarda aos seus ninhos, por isso fica susceptível durante a época reprodutora. A época reprodutora varia de acordo com o local e de acordo com a variação da temperatura da água nesse ano, ou seja, é dificilmente previsível. Resumindo, dadas as pequenas dimensões desta espécie e a especial susceptibilidade, é uma espécie que os caçadores submarinos deverão evitar. Não deverá ser considerada uma espécie-alvo.

Cavaco, Scylarides latus, crustáceo (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei nos Açores é de 17cm medido entre o olho e a inserção do telson (extermidade da cauda). O período de defeso nos Açores começa em 1 de Maio e termina em 31 de Agosto. O caçador submarino deve, na nossa opinião, considerar a captura de crustáceos como ocasional.


Cavaco Scylarides latus (foto: J Fontes ImagDOP).

Charéu o mesmo que encharéu ou xaréu.

Choco, Sepia officinalis (C, M?). Presa habitual dos caçadores mais inexperientes. Este animal, como todos os cefalópodes, morre após a reprodução. Isto significa que não se pode esperar que esteja maturo para poder caça-lo. Para este tipo de espécies apenas se podem estabelecer quotas de captura. As populações de chocos não parecem susceptíveis à caça submarina pelo que não se aconselha qualquer restrição. Esta espécie é muito comum e não serão os caçadores submarinos a colocar a sua existência em perigo.

Corvina, Argyrosomus regius (C). Esta espécie atinge a sua maturidade aos 6 anos, ou seja, quando tem cerca de 5.8kg (cerca de 80cm). O tamanho mínimo de captura deveria ser de 6kg. As corvinas podem ter dois metros de comprimento e 80kg de peso.

Dourada, Sparus aurata (C, M). O peso na primeira maturação é de cerca de 420g. Esta espécie foi inadvertidamente introduzida na Madeira, através das experiências de aquacultura. Parece que o impacto ambiental desta introdução foi muito limitado estando a população invasora aparentemente, e felizmente, em regressão.
Citada no Livro Vermelho com o estatuto de comercialmente ameaçada.

Dourado, Coryphaena hippurus (C, M, A). Não se devem capturar exemplares desta espécie com menos de 10kg. Só com este peso esta espécie atinge a maturidade sexual. Algumas descrições indicam que existe algum nível de fidelidade nos casais desta espécie. As implicações que o abate de um exemplar têm no par ainda não são conhecidas. O dourado pode atingir 40kg aos 5 anos.


Dourado Coryphaena hippurus (foto: F Cardigos ImagDOP)

Enxaréu, Pseudocaranx dentex (C, M, A). Esta espécie só atinge a maturidade aos 5kg. A longevidade é de 49 anos.

Faneca, Trisopterus luscus (C). Atinge o peso de primeira maturação cerca dos 160g.

Garoupa, Serranus atricauda (C, M, A). Presa frequente de todos os caçadores que passam pelos Açores. Tal como o mero, este peixe tem um sistema reprodutor um pouco estranho. No caso das garoupas, uma vez maturas podem reproduzir-se como macho ou fêmea, sendo o seu sexo-funcional definido apenas no momento dos rituais de acasalamento. De facto, esta espécie é o que se chama “hermafrodita simultâneo”. A sua maturação é atingida, genericamente, quando pesa 200g. No Continente as espécies mais comuns são Serranus scriba e S. cabrilla cujo peso de primeira maturação é 150g, para ambas.

Lagosta, Palinurus elephas, crustáceo (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei é de 23cm medido entre o olho e a inserção do telson. O período de defeso nos Açores começa em 1 de Outubro e termina em 31 de Março (embora a partir de 1 de Janeiro seja possível capturar indivíduos não ovados).

Lavagante, Homarus gamarus, crustáceo (C, M?). É muito raro esta espécie estar disponível nas áreas em que se pratica caça submarina. No entanto, conhecem-se capturas ocasionais em todo o litoral do Continente sobretudo entre Sagres e Peniche, normalmente associados a destroços afundados e em grandes molhes ( como é o caso da Barra de Leixões).

Linguado, Solea solea, presa habitual dos caçadores mais inexperientes (C). Não capture exemplares desta espécie com menos de 200g (peso da primeira maturação).

Lírio, Seriola spp. (C, M, A). Na realidade integra, pelo menos, duas espécies, uma tem o corpo mais alongado (Seriola dumerili) e a outra tem o corpo mais arredondado (Seriola rivoliana). Para a primeira espécie o peso de maturação é de 8kg, enquanto para a segunda o peso de maturação é de 3kg. Neste caso, apesar das semelhanças, torna-se muito importante saber distinguir as espécies.


As duas espécies de lírios Seriola dumerili (P Wirtz ImagDOP) à esquerda e S. rivoliana (foto: F Cardigos ImagDOP) à direita.

Lula, Loligo spp., invertebrado, frequência de captura casual (C, M, A). Este animal, como todos os cefalópodes, morre após a reprodução. Isto significa que não se pode esperar que esteja maturo para poder caça-lo. Para este tipo de espécies apenas se podem estabelecer quotas de captura. As populações de lulas não parecem susceptíveis à caça submarina pelo que não se aconselha qualquer restrição. Esta espécie é muito comum e não serão os caçadores submarinos a colocar a sua existência em perigo.

Mero, Epinephelus marginatus (C, M, A). A captura desta espécie é interdita na Madeira e nos Açores por caça submarina. No futuro, poderá ser razoável considerar a sua autorização com uma quota diária. Pelo seu comportamento sedentário e grande valor comercial esta é uma das espécies mais vulneráveis. Este peixe tem um desenvolvimento biológico “estranho”, embora comum nos peixes e na sua Família (Serranidae). Quando nasce tem um sexo (no caso, fêmea) e com o desenvolvimento muda (torna-se macho). Isto significa que, neste caso, é essencial deixar a espécie crescer, sob o risco de se ter uma população unicamente de fêmeas. A mudança de sexo dá-se quando o peixe tem entre 5 e 7kg. É nossa convicção que um exemplar por dia por pessoa e o peso mínimo de 10kg deveria ser respeitado, bem como uma época de defeso durante o mês em que ocorrem as agregações reprodutivas (Julho). Tem uma longevidade de 50 anos.
Citado no Livro Vermelho com o estatuto de vulnerável, ou seja, “impõem-se medidas de protecção à espécie, protecção das áreas de recrutamento e crescimento (...)”.

Moreia, várias espécies (C, M, A). Não há uma espécie única de moreia. Só nos Açores há a Muraena augusti (moreia preta), Muraena helena (moreia pintada), Gymnothorax unicolor (moreão), Enchelycore anatina (víbora). São facilmente distinguíveis, mas em termos reprodutores podemos assumir o comprimento de primeira maturação aos 80cm. Infelizmente, não foi possível encontrar qualquer trabalho em se fizesse a relação entre o comprimento das moreias e o seu peso. De qualquer forma, dado ser uma presa fácil re comendamos a limitação da sua captura apenas a exemplares de grandes dimensões (superiores a 1.5kg) e com uma frequência esporádica.


Moreão Gymnothorax unicolor (foto: JP Barreiros ImagDOP).

Pargo, Pagrus pagrus (C, M, A). Este peixe pode atingir quase 1m de comprimento. O peso de primeira maturação é de 700g.
Citada no Livro Vermelho como comercialmente ameaçada no Continente e Açores.

Peixe-cão, Bodiannus scrofa. Não há dados editados em trabalhos científicos que sustentem a declaração de um tamanho mínimo. No entanto, dado que é uma espécie que muda de sexo com a idade (fêmea para macho) e ser fácil a identificação dos mesmos (fêmea – rosa e amarelo, macho – vermelho escuro), aconselha-se a captura exclusiva de machos.


É muito fácil distinguir os peixe-cão, Boadiannus scrofa, macho (esquerda) das fêmeas (direita).
Fotos: Peter Wirtz (esq) e F Cardigos ImagDOP (dir)


É muito fácil distinguir os peixe-cão, Boadiannus scrofa, macho (esquerda) das fêmeas (direita).
Fotos: F Cardigos ImagDOP

Peixe-galo, Zeus faber (C, M, A). Este animal atinge a maturidade quando possui cerca de 1kg (4 anos), ou seja, 38cm de comprimento. O seu avistamento é muito ocasional o que indicia algum nível de raridade na zona acessível à caça. O carácter ocasional deve-se ao facto de a espécie raramente ocorrer a baixas profundidades (menos de 50m).
Segundo o Livro Vermelho, esta espécie está comercialmente ameaçada no Continente, sendo o arrasto de fundo “a principal arte de pesca que actua sobre esta espécie”. 

Polvo, Octopus vulgaris (C, M, A). Espécie com peso mínimo definido por lei de 750g. Tal como o choco e a lula, este cefalópode apenas se reproduz uma vez. Ao contrário das outras espécies de cefalópodes, os polvos têm populações limitadas e uma grande procura pela pesca profissional. Daí a sua captura dever obedecer a alguma contenção.

Rascasso, Scorpaena spp., presa habitual dos caçadores menos experientes (C, M, A). De facto, este é um grupo de várias espécies de pequenos “peixes-escorpião”. Este conjunto de espécies é bentónico, ou seja, habita junto ao fundo. Para escapar aos predadores e para capturar as suas presas utiliza a técnica do imobilismo e do mimetismo. Isso significa que, uma vez identificada a posição, não há qualquer mérito na sua captura, visto que a estratégia da espécie é mesmo não fugir. Devido ao seu reduzido tamanho, não é muito útil a sua captura para a alimentação e esta deverá ser evitada.

Robalo, Dicentrarchus labrax (C). Atinge a maturação cerca dos 550g. Também no Continente, existe uma outra espécie de robalo – a baila ou vária – D. punctata. Atinge a maturidade por volta dos 400 g mas nunca alcança os grandes tamanhos do robalo e parece ser menos comum fora do litoral algarvio.

Rocaz, Scorpaena scrofa, presa pouco habitual (C, M, A). Este é mais conhecido por “peixe-escorpião”, mas, neste caso, é bastante apetecido e alvo de exploração profissional intensa. Esta espécie é bentónica, ou seja, vive junto ao fundo. Para escapar aos predadores e para capturar as suas presas utiliza a técnica do imobilismo e do mimetismo. Isso significa que, uma vez identificada a posição, não há qualquer mérito na sua captura, visto que a estratégia da espécie é mesmo não fugir. No entanto, em termos gastronómicos, é muito compensadora a sua captura para alimentação. Se o fizer tenha em atenção que este peixe tem uma armação de espinhos venenosos.

Roncador, Dentex dentex (C, M). Peixe que ainda é capturado com dimensões elevadas. A sua idade de primeira maturação é de 6 anos (1.6kg).

Ruivo, Trigla lyra, frequência de captura casual e alvo dos caçadores mais inexperientes (C, M?). Este peixe encontra-se maturo quando atinge o peso de 800g.

Safio, Conger conger (C, M, A). É também denominado de “congro”. O tamanho mínimo autorizado por lei é 58cm (equivalente a cerca de 300g) o que é francamente insuficiente tendo em atenção que o peso de maturação é de 2kg (110cm). Esta espécie tem um nível de sensibilidade muito grande, pois julga-se que se reproduz apenas uma vez em toda a sua vida; logo uma atitude especialmente precaucionária deve sempre ser adoptada. Pensamos que se devia considerar o peso mínimo de captura de 10kg (cerca de 1.5m).
Citada no Livro Vermelho como comercialmente ameaçada no Continente.

Salema, Sarpa salpa (C, M, A), é presa habitual dos caçadores menos experientes. O tamanho mínimo autorizado por lei é de 18cm (equivalente a cerca de 130g). O peso de primeira maturação é de 600g. As salemas, dado o seu fraco sabor, são apenas capturadas em competição.
Comercialmente ameaçada no Continente, segundo o Livro Vermelho.

Salmonete, Mullus surmuletus (C, M, A), presa habitual dos caçadores mais inexperientes. O tamanho mínimo autorizado por lei é de 11cm, mas o comprimento de primeira maturação é de 18cm. Nos Açores a maturidade é atingida quando a espécie tem 16cm, ou seja, 50g. É uma presa habitualmente fácil e vulnerável, por isso não deveria ser estimulada a sua captura.
Comercialmente ameaçada no Continente e insuficientemente conhecida nos Açores, segundo o Livro Vermelho.

Santola, Maja squinado, crustáceo (C, M, A). Não se podem capturar indivíduos com largura do corpo inferior a 12cm e tem um período de defeso, nos Açores, que se inicia em 1 de Outubro e termina a 31 de Março (embora a partir de 1 de Janeiro seja possível capturar indivíduos não ovados).

Sargo, Diplodus spp. (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei é de 15cm. O género que agrupa os diversos sargos é muito vasto. No entanto, qualquer caçador deverá reconhecer as duas espécies mais comuns: Diplodus sargus e Diplodus vulgaris. É fácil distinguir, pelo menos estas três espécies: D. vulgaris tem uma lista preta perto do opérculo e outra junto à cauda; D. sargus tem listas pouco conspícuas em todo o corpo, mas com uma mancha especialmente visível no pendúnculo caudal; D. cervinus tem listas bem visíveis em todo o corpo; D. puntazzo tem as maxilas especialmente salientes, em termos de coloração é parecido com o D. sargus. Propomos um peso mínimo de captura de 300g (28cm) no caso de D. sargus e 550g para as restantes espécies.
Diplodus annularis, D. bellottii, D. cervinus, D. puntazzo, D. sargus e D. vulgaris estão citados como comercialmente ameaçadas no Continente.


Há diversas espécies de sargos.
Na imagem vemos a espécie mais comum nos Açores Diplodus sargus cadenati.
Fotos: R Patzner ImagDOP

Serra, Sarda sarda (C, M, A). Não há dados editados em trabalhos científicos que sustentem a declaração de um tamanho mínimo. Não confundir as serras com os restantes tunídeos. Apenas a título de exemplo, o atum rabilo Thunnus thynnus atinge a sua primeira maturação aos 87kg e encontra-se referido no Livro Vermelho dos Vertebrados.

Solha, Bothus podas (M, A), presa comum nos Açores. Atinge a maturidade sexual aos 32g (15cm). Dada a facilidade da sua captura e o baixo valor alimentar, a sua captura deverá ser evitada.

Tainha, Família Mugillidae (C, M, A). Não há uma espécie única de tainha. Infelizmente, são diversas espécies, dificilmente identificáveis ao vivo, mesmo por olhos experientes. De qualquer forma, a exploração sustentada deste grupo de espécies não as colocará em perigo. Aliás, a sua magnífica capacidade de habitar águas salobras com algum nível de poluição tem-lhe dado vantagem em relação a outras espécies mais sensíveis. Em termos ecológicos, chama-se a este tipo de espécies “oportunistas”. A espécie Chelon labrosus (uma das tainhas mais comuns) atinge a maturidade quando pesa cerca de 200g. É nossa convicção que o tamanho mínimo de captura deverá ser de 500g.

Veja, Sparisoma cretense (M, A). Há observações de comportamentos diferentes deste peixe em zonas exploradas e não exploradas. Daí a expressão “vejas escaldadas” para descrever o comportamento das vejas em zonas muito exploradas. Aos 24cm (cerca de 230g) a veja atinge a maturidade, logo não deverá ser capturada antes disso. Dada a facilidade com que se distinguem os sexos (fêmeas - vermelhas, machos - cinzentos), aconselha-se que as capturas de vejas se façam de um modo equilibrado.

Xaréu o mesmo que encharéu ou charéu.

 

Fontes

- FishBase: Página internet com extensa base de dados sobre peixes: http://www.fishbase.org/
- Página internet do Fórum Oceanos: http://www.pg.raa.pt/oceanos/
- Legislação: Portaria nº 27/2001, de 15 de Janeiro.
- Legislação: Portaria nº 19/83, de 3 de Maio.
- Morato, T., P. Afonso, P. Lourinho, J.P. Barreiros, R.S. Santos & R.D.M. Nash 2001. Length-weight relationships for 21 coastal fish species of the Azores , north-eastern Atlantic . Fisheries Research, 50: 297-302.
- Livro Vermelho dos Vertebrados Portugueses.

Alguns dos dados apresentados não estão ainda publicados e resultam das bases de dados do segundo e terceiro autor sobre as espécies referidas.

 

Agradecimentos

Ao Rogério Ferraz pelas indicações sobre o Livro Vermelho e ao Les Gallagher pelas sugestões.

 

Biografias

Frederico Cardigos- é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve e é Mestre em Gestão e Conservação da Natureza pela Universidade dos Açores. É contratado como investigador pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto, financiado pela Comissão Europeia (6FP), EXOCET - EX treme ecosystems studies in the deep OCEan: Technological developments e colabora activamente nos Projectos MAROV (PDCTM/P/MAR/15249/1999) e OGAMP (MAC/4.2/A2).

João Pedro Barreiros- é Licenciado em Engenharia Zootécnica, Mestre em Ecologia e Etologia e Doutorado em Biologia, Especialidade de Ecologia Animal. É Professor Auxiliar no Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e trabalha em Biologia Marinha, sobretudo em ecologia comportamental de peixes marinhos do Oceano Atlântico. Dedica-se à Ilustração Científica como complemento dos seus trabalhos de investigação. João Pedro Barreiros é patrocinado por Picasso, Simotal Group. E-mail: jpedro@angra.uac.pt

Telmo Morato Gomes - licenciou-se em Biologia Marinha e Pescas na Universidade do Algarve e efectuou o Mestrado em Ecologia na Universidade de Coimbra. Realizou as teses de licenciatura e Mestrado no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e, desde então, tem participado em vários projectos de investigação sobre as comunidades de peixes costeiros dos Açores. Fez parte da equipa do Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509) e posteriormente ajudou a estruturar um projecto de investigação sobre o efeito das áreas marinhas protegidas nas comunidades de peixes. Actualmente, encontra-se a realizar o doutoramento na Universidade da British Columbia (Vancouver, Canadá), sobre modelação ecológica, para melhor compreender a dinâmica de ecossistemas marinhos.