A Lagosta

Por Frederico Cardigos


Foto: J. Fontes ImagDOP.

 

 

(Introdução)

 

A lagosta-castanha (Palinurus elephas) é uma das mais de 30 mil espécies de crustáceos descritas e uma das mais de 1 milhão de espécies de artrópodes existentes. Apesar de “diluída neste mar de espécies”, a sua dimensão, o exotismo e... o sabor tornam esta espécie alvo de atenção especial por parte do mergulhador e do caçador submarino.

 

 

Identificação

 

Este animal possui um esqueleto exterior rijo (exosqueleto) e numa peça, a carapaça, une o cefalotórax. Esta carapaça, de forma aproximadamente cilíndrica, possui diversos espinhos. O abdómen é articulado e termina numa peça de nome telson ladeado por urópodes. Possui, na parte anterior da carapaça, duas longas antenas frontais semelhantes a chicotes. Possui cornos (em biologia não é uma grosseria dizer “cornos”) de forma triangular, localizados na parte anterior do corpo, que são separados por um espaço denticular no bordo interno. Estes cornos servem de armadura de protecção em relação aos olhos. O rostro é mediano, rudimentar, de pequenas dimensões. O quinto par de patas locomotoras é o mais curto e nas fêmeas possui pinças (que servem para manipular os ovos). Os caracteres morfológicos externos são suficientes para permitir distinguir entre machos e fêmeas. A cor é vermelho-acastanhada. Possui duas grandes manchas amareladas em cada segmento abdominal. O comprimento total pode chegar aos 50 cm, embora seja difícil encontrar animais com mais de 35 a 40 cm.

 

Na Europa dificilmente poderá confundir a lagosta com outra espécie. É que esta é a única espécie de lagosta que está registada para as águas menos profundas da Europa. O animal mais parecido que frequenta as nossas águas é o lavagante, mas as diferenças nas tenazes, por exemplo, são tão grandes que tornam os animais inconfundíveis. Caso encontre uma lagosta incomum, tente fotografá-la e envie a informação à unidade de investigação mais próxima da zona de registo. No norte de África poderá ser encontrada, dentro dos limites de distribuição da lagosta verde, a espécie Palinurus regius, mas não em Portugal (embora algumas referências apontem para a presença desta espécie em França e Espanha).

 

O seu comportamento social é em geral gregário. A espécie apenas efectua movimentos limitados e concentrados durante a noite para se alimentar e reproduzir. A preferência pelo período nocturno, especialmente nos indivíduos mais jovens, está relacionada com a tentativa de evitar eventuais predadores. As migrações maciças, típicas das espécies das Caraíbas, não foram ainda detectadas para a espécie europeia, embora a densidade costeira diminua com o final do período de reprodução, voltando a aumentar na Primavera. Nalgumas espécies das Caraíbas foram detectados indícios de um sistema muito complexo na orientação destas espécies que permitem não apenas detectar uma linha de rumo como também determinar a sua posição geográfica. As experiências incluíram a transladação de animais de um lado para outro no sentido de verificar se o movimento se dava com a mesmo rumo. Nessas experiências, os cientistas detectaram que os animais faziam variar o seu rumo conforme o local em que tivessem sido colocados. Isso apenas é possível se existir uma forma de detectar a sua posição num dado momento. Depois de mais algumas experiências, os investigadores obtiveram alguns indícios de que essas espécies de lagostas têm aparentemente a capacidade de tirar linhas de posição sucessivas em relação ao pólo magnético, de forma a detectarem a sua posição actual.

 

A alimentação é variada, incluindo algas, esponjas, briozoários, anelídeos (poliquetas), moluscos, ouriços, crustáceos e, excepcionalmente, peixes. A lagosta pode alimentar-se de bivalves, conseguindo quebrar as suas conchas. Também não desprezam a alimento morto (o que é utilizado pelos pescadores para as atraírem).

Várias espécies de peixes (como o peixe-porco) e cefalópodes (como o polvo) são predadores das lagostas.

Detalhe da cabeça da lagosta.
Foto: J. Fontes ImagDOP 

 

Ciclo de vida

 

A dimensão a que atinge a maturidade sexual é dependente da latitude. Quanto mais para norte mais tarde se atinge a primeira maturação (há registos de animais maturos aos 21 cm em latitudes baixas e animais a atingir a maturidade sexual aos 35 cm, nas latitudes mais elevadas. Normalmente, uma fêmea matura terá pelo menos seis anos. O acasalamento dá-se no Verão, seguido da postura pouco tempo depois. A fecundidade das fêmeas é dependente do seu comprimento. Por exemplo, à mesma latitude um animal de 23 cm poderá pôr 13 mil ovos e porá 134 mil ovos quando atingir um comprimento de 34 cm. No máximo uma fêmea poderá pôr até 250 mil ovos. Estes números de ovos, no meio marinho, não são considerados muito elevados.

 

A postura dá-se a seguir a uma muda do exosqueleto e as fêmeas não voltam a mudar até que os ovos tenham eclodido. Estes permanecem fixos aos apêndices abdominais durante a fase de incubação. As fêmeas no Atlântico estão ovadas entre Outubro e Março. A duração da incubação é dependente da temperatura da água. Nas latitudes mais baixas, a incubação dura 5 meses e nas águas de temperaturas menos elevadas poderá durar 9 meses. As larvas resultantes da eclosão, têm o nome de Filossomas, possuem 3 milímetros e são pelágicas planctónicas. Os animais passam à forma pós-larvar passado entre os 6 meses a um ano. Apesar de parecer muito longo, o período larvar de Palinurus elephas é um dos mais curtos da família Palinuridae, havendo espécies com um período larvar de cerca de um ano. As larvas têm um aspecto aplanado e transparente que em nada faz lembrar um animal adulto. Aliás, na maioria dos crustáceos, dadas as enormes diferenças morfológicas e diferentes subfases larvares, apenas os especialistas conseguem fazer a ligação entre as fases larvares e as adultas da maioria das espécies. No final da última fase larvar, já com um aspecto muito parecido com o de uma lagosta adulta, o animal passa a ter um comportamento bêntico.

O crescimento, nas fases juvenil e adulto, é mais lento e o macho cresce mais rapidamente que a fêmea. Por exemplo, para um macho atingir um peso de 500 g terá de ter cerca de cinco anos, enquanto uma fêmea precisa de 6 anos. Tem uma grande longevidade, podendo atingir uma idade estimada em 14 anos. As mudas dão-se com intervalos de 15 dias nos animais que acabam de chegar ao fundo, mas com a idade, a necessidade de mudar diminui, até que os indivíduos mais velhos, de crescimento mais lento, mudam apenas de ano a ano. Após uma muda, e até que o novo esqueleto externo tenha solidificado (o que demora várias horas), estes crustáceos são especialmente sensíveis a agressões exteriores como, por exemplo, a predação. Para restabelecer os níveis de cálcio necessários à solidificação da nova carapaça, é habitual as lagostas alimentarem-se da antiga carapaça.

O crescimento lento, com taxa de reprodução moderada e grande longevidade, classifica as lagostas como possuindo uma estratégia ecológica do tipo “k”.  Ao contrário, os animais do tipo “r”, como os insectos, possuem baixa longevidade, taxas de reprodução elevadas e crescimento muito rápido. Estes conceitos de estratégia ecológica foram muito utilizados para ajudar a propor medidas de gestão e protecção no passado. Era uma simples regra de bom senso que as espécies com estratégia ecológica do tipo “k” necessitassem de mais atenção por parte das entidades gestoras e ligadas à conservação da natureza.

 

 

Distribuição

 

É uma espécie demersal, que prefere os substractos rochosos com algas. Durante o dia refugia-se em cavidades mal iluminadas. Prefere as cotas dos 20 aos 70 metros de profundidade, mas pode ocupar profundidades entre os 5 até aos 160 metros. Nos meses de Inverno ocupa as maiores profundidades.

É um animal considerado emblemático no Mediterrâneo (mais comum em Itália e França que na Grécia e Líbia), embora se distribua pelo Atlântico Nordeste, desde o Cabo Bojador até ao Sul da Noruega, incluindo o Mar Mediterrâneo e parte setentrional das Ilhas Britânicas, mas excluindo o Mar do Norte. Habita também as Ilhas Canárias, Madeira e Açores.


Lagostas a grande profundidade.
Foto: J. Fontes ImagDOP

 

 

Medidas de gestão e protecção

 

A elevada exploração desta espécie tem conduzido a uma redução dos mananciais. De forma a gerir as populações de uma forma sustentável, está dado um tamanho comprimento mínimo de captura para esta espécie em Portugal. Assim, animais com dimensões inferiores a 11cm de comprimento da carapaça são ilegais. Nos Açores animais com menos de 23 cm (medidos entre a inserção do olho e o fim do abdómen) não podem ser capturados. Para esta espécie existe uma época de defeso que começa a 1 de Outubro e acaba a 31 de Dezembro. Nos Açores a época de defeso é a mesma, mas como uma extensão até 31 de Março para as fêmeas (embora esteja a ser preparada nova legislação). Através da caça-submarina (e a respectiva licença), nos Açores e na Madeira apenas podem ser capturados dois crustáceos (como a lagosta) por mergulhador e por dia. É proibida a captura deste animal utilizando garrafa de mergulho.

 

Noutros países, para além das medidas aplicadas em Portugal, foram ainda criadas Áreas Marinhas Protegidas direccionadas para a protecção desta espécie. Há países, como em Espanha em que há propostas científicas no sentido de criar uma interdição à captura de fêmeas ovadas e luta séria contra a pesca ilegal destes animais.

Em termos de esforços conjuntos para a protecção internacional desta espécie, ela encontra-se referida na Convenção de Barcelona.

 

Para que estas medidas de gestão possam ser eficientes, é necessário que haja um total respeito pelas mesmas, que se utilizem métodos de captura selectiva e que as capturas sejam registadas em lota.

 

Infelizmente, em Portugal um dos métodos utilizado para capturar esta espécie é a rede de emalhar de longo período. O processo de captura inclui deixar a rede de emalhar apanhar peixe, esperar que este apodreça e assim atrair as lagostas que acabam por ficar emalhadas. Esta arte é considerada lesiva do ambiente. O melhor método para capturar a lagosta, considerado o mais selectivo e o menos impactante, é a pesca por cofre.

 

 

Conclusão

 

Independentemente do valor comercial que a espécie tem e de quão maravilhosa pode ser uma refeição iniciada com este acepipe, a lagosta quando observada com escafandro autónomo é um animal complexo que deverá ser alvo de toda a consideração e dignidade.

 

 

Para saber mais:

 

Taxonomia:

Filo Arthropoda

Classe Crustacea

Ordem Decapoda

Família Palinuridae

Género Palinurus

Espécie Palinurus elephas (Fabricius, 1787)

 

Nomes da lagosta no mundo:

Português Lagosta;

Espanha langosta común europea e langosta roja (Castelhano), llagosta (Catalão)

Otarrain (Basco);

Inglês Common spiny lobster (Inglaterra), Crayfish (Irlanda);

Francês langouste rouge (FAO), langouste commune, grill (Bretão)

Alemão Langusten

Italiano Aragosta

Grego Astakós

Turco Börek

 

Pequeno glossário:

Corno substantivo masculino - cada um dos apêndices duros e recurvados que certos animais têm na cabeça (Do lat. cornu-, «id.») (in Diciopédia 2002, Porto Editora, Lda).

Morfologia tratado ou estudo da forma exterior que a matéria ou os seres vivos podem tomar (in Diciopédia 2002, Porto Editora, Lda.)

Muda Substituição periódica do exosqueleto efectuada periodicamente pelos crustáceos. Com o aumento da idade e consequente diminuição da taxa de crescimento, o período entre mudas aumenta.

Necton Animais que vivem na coluna de água, mas que conseguem superar o movimento geral das correntes.

Plâncton Animais e algas que vivem na coluna de água e derivam sem conseguir contrariar o movimento longitudinal das correntes. Alguns deles possuem a capacidade de executar movimentos verticais de grande amplitude (tipicamente diários).

Rostro parte anterior da carapaça.

 

 

Páginas Internet:

http://www.mnhn.fr/mnhn/bimm/protection/fr/Especes/Fiches/Palinuruselephas.html Dados interessantes sobre a lagosta na perspectiva francesa.

http://vm.cfsan.fda.gov/%7Edms/qa-ind5k.html Dados interessantes sobre a lagosta na perspectiva norte-americana.

http://www.mermaid1.demon.co.uk/body_crustaceans.htm Vários crustáceos em comparação fotográfica.

http://www.itsligo.ie/biomar/crustace/PALELE.HTM

http://marenostrum.org/vidamarina/animalia/invertebrados/crustaceos/langosta/

http://www.carm.es/cma/dgmn/mnatural/litoral/especies/crustace/palinuru.htm

http://www.geocities.com/ruipatriciof/lobsters/

 

Bibliografia complementar:

Debelius, H. 1999. Crustacea: guide of the world. Ikan, Frankfurt. 321p.

Fischer, W., G. Bianchi and W.B. Scott (eds), 1981. FAO Species Identification sheets for fishery purposes. Eastern Central Atlantic, areas 34 e 47 (in part). Vol. V. Otava.

Moonsleitner, H. & R. Patzner 1995. Unterwasserführer: Mittelmeer (Niedere Tiere). Verlag Naglschmid, Estugarda. 214p. Guia de invertebrados muito completo para o Mediterrâneo. Tem boas fotografias e muita informação interessante sobre a bio-ecologia de algumas espécies.

Morton, B., J.C. Britton & A.M.F. Martins 1998. Ecologia Costeira dos Açores. Sociedade Afonso Chaves, Ponta Delgada. 249p. Este livro transmite valiosos conhecimentos sobre o funcionamento dos ecossistemas costeiros dos Açores. Obrigatório na preparação de estudos sobre ecologia na zona entre o supralitoral e o infralitoral dos Açores.

Portaria n.º 1102-D/2000 de 22 de Novembro “Pesca por Arte de Armadilha”

Reis, D.C.C. 1997. Estudo da pescaria de lagosta verde (Palinurus regius De Brito Capello, 1864) do Arquipélago de Cabo Verde. Relatório de Estágio do Curso de Licenciatura em Biologia Marinha e Pescas. Universidade do Algarve, Faro, 53p + Anexos.

Saldanha, L. 1995. Fauna Submarina Atlântica. Publicações Europa-América. 364p. O facto de estar escrito em Português confere-lhe uma franca vantagem em relação a outros guias do género.

Sequeira, R.M.V. 2001. Biologia e caracterização da pesca de lagosta (Palinurus elephas, Fabricius 1787) nos Açores. Relatório de Estágio do Curso de Licenciatura em Biologia Marinha e Pescas. Universidade do Algarve, Faro, 53p + Anexos.

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer: Madeira, Kanaren, Azoren (Invertebrates). Verlag Naglschmid, Estugarda. 247p. Guia de invertebrados muito completo para os Arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores. Tem boas fotografias e muita informação interessante sobre a bio-ecologia de algumas espécies.

Agradecimentos

Agradecimento aos colegas Helen Rost Martins, João Gonçalves e Rogério Ferraz pela revisão e sugestões. Agradecimento à Margarida Abecasis pela revisão do manuscrito.

 

Biografia

Frederico Cardigos - é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve e é Mestre em Gestão e Conservação da Natureza pela Universidade dos Açores. É bolseiro do Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, MAROV (PDCTM/P/MAR/15249/1999) e colabora activamente no Projecto OGAMP (MAC/4.2/A2), financiado pela União Europeia através do Programa InterReg IIIb.