Das Raridades à Colonização: Passos no Povoamento Natural

por: Telmo Morato

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Sob o ponto de vista humano, a colonização das Ilhas Oceânicas, ou outro lugar igualmente remoto, é simples. Basta lá chegar com a parafernália adequada, construir e manter os elementos base para a sobrevivência. Foi assim que em 1427 o Arquipélago dos Açores foi colonizado. Mas na natureza as coisas não são tão simples. É preciso que estejam reunidas uma série de condições para que as espécies possam ser transportadas até ao local em número suficiente para iniciar uma colónia e, no local, têm de existir um outro conjunto de condições que permitam a sua manutenção.

Tomemos ainda o exemplo do Arquipélago dos Açores, localizado entre 36º55'N, 25º01W e 39º43'N, 31º15'W, dista aproximadamente 1000 milhas náuticas (aprox. 1850 km) do continente mais próximo. Tem sido denominado ao longo dos anos, como o mais isolado do Atlântico Norte. Os processos de colonização das suas ilhas atlânticas não são ainda bem conhecidos. Se por um lado as correntes dominantes no Atlântico Norte vêm de Oeste (ex: corrente do Golfo), é sabido que a ictiofauna destas ilhas têm uma grande afinidade biogeográfica com o Atlântico Este. A grande distância que separa os Açores das zonas costeiras do continente americano parece impedir que as larvas de peixe sobrevivam na coluna de água durante tempo suficiente até chegarem às zonas costeiras das ilhas. O mecanismo mais plausível é o transporte de ovos, larvas, juvenis ou adultos através de algumas correntes mais profundas originárias no Mediterrâneo ou ainda através de "eddies" provenientes da Europa, Norte de África e arquipélagos da Madeira e Canárias. Nestes processos a existência de bancos submarinos de baixa profundidade (especialmente durante os períodos glaciares em que o nível do mar seria pelo menos 100 metros inferior ao actual) pode ter servido de alpondra e ajudar à sobrevivência e dispersão destes indivíduos.

Até à data, é conhecido que a comunidade de peixes costeiros (que habitam em profundidades inferiores a 200 metros) dos Açores é constituída por 116 espécies (25% dos peixes conhecidos para a região). Esta comunidade apresenta semelhanças principalmente com as existentes nos arquipélagos da Madeira e Canárias que conjuntamente com os Açores formam a conhecida Macaronésia, mas também com as das zonas costeiras do Europa do Sul, Norte de África e Mediterrâneo.

Tem-se verificado nos últimos anos o aparecimento de espécies de peixes que não eram conhecidas para os Açores. Temos primeiro que diferenciar ocorrências ocasionais, que resultam do aparecimento de um ou mais indivíduos que são avistados ocasionalmente e que não estabelecem populações viáveis, da ocorrência de novas espécies que estabelecem populações viáveis, i.e. que ocupam um nicho ecológico, que se reproduzem e se estabelecem. Apesar de não serem ainda conhecidas as razões ou mecanismos para tal aparecimento, este facto pode dever-se a um conjunto de factores. Se por um lado as alterações climáticas são uma verdade, podendo alargar ou reduzir significativamente a área de distribuição de algumas espécies de peixes, por outro, diversos mecanismos podem estar a contribuir para o crescente aparecimento de espécies novas. A ocorrência de condições naturais invulgares que facilitem o transportes de indivíduos ou até casos de introdução de espécies marinhas provocadas por acção antropogénica, são apenas alguns exemplos. É conhecido o caso de alguns invertebrados (p.ex. a ascídea Clavelina lepadiformis invasora proveniente da Europa continental) e algas (p.ex. a alga Asparagopsis armata, segundo se crê, invadiu as águas europeias oriunda do hemisfério Sul) que são transportados no lastro dos navios ou fixados aos cascos, bem como peixes que são libertados de aquários, podendo originar o aparecimento de novas espécies. Curiosamente, através das colonizações por invertebrados podem-se verificar indíces de tráfego de embarcações e detecção de rotas. O princípio é simples: se uma espécie, que ocorre naturalmente em determinada zona, passar a ocorrer em volta de um porto de outra área, é provável que isso resulte de um transporte involuntário indivíduos na água de lastro ou fixados ao casco. Se a espécie começar a ocorrer em larga escala isso pode resultar de uma adaptação muito eficiente ou de um transporte contínuo. Daqui pode-se começar a dissertar sobre um tema vasto, útil e extremamente preocupante. É que as espécies que invadem novos territórios podem expulsar as espécies que aí naturalmente ocorriam, ocupando o seu espaço na totalidade. Nos casos extremos os organismos autócones podem mesmo desaparecer. Para evitar este problema, há investigadores que defendem que a água de lastro deve ser eficientemente filtrada de forma a remover eventuais invasores.


Hipótese 1: A ascídea Clavelina lepadiformis invadiu os Açores a partir do Continente.
Foto: RS Santos ImagDOP


Hipótese 2: A ascídea Clavelina lepadiformis invadiu os Açores a partir do Continente.
Foto: J Fontes ImagDOP


A alga vermelha Asparagpsis armata foi registada pela primeira vez na Europa apenas em 1925.
Foto: J Fontes ImagDOP


A anémona Parazoanthus sp. aparece essencialmente perto das zonas portuárias dos Açores.
Será uma invasora?
Foto: R Patzner ImagDOP

Das recentes ocorrências de peixes costeiros nos Açores, destacam-se o sargo vulgar (Diplogus vulgaris), comum no Continente, mas desconhecido para os Açores até então, e o peixe-borboleta (Chaetodon sedentarius), pela raridade. No entanto, um dos casos mais recentes e curiosos foi o aparecimento de uma espécie de badejo (género Mycteroperca) até agora desconhecida para a região. O género Mycteroperca tem uma ampla distribuição geográfica e são reconhecidas actualmente 15 espécies diferentes: 2 no Atlântico Este, 8 no Atlântico Oeste e 5 no Pacífico Este. Nos Açores apenas é conhecida a existência do badejo "das ilhas" (Mycteroperca fusca), enquanto que em Portugal continental só é conhecido a garoupa-chumbo (Mycteroperca rubra). Recentemente, foi avistado ao largo da ilha do Faial um indivíduo solitário que se parecia com um badejo mas que apresentava algumas diferenças morfológicas e comportamentais. Este indivíduo foi encontrado a cerca de 25 metros de profundidade e cerca de 4 metros acima do fundo rochoso, nadando em círculos e aproximando-se bastante dos mergulhadores. Após uma análise exaustiva do indivíduo e de análises genéticas verificou-se que este peixe era um badejo das Caraíbas (Mycteroperca phenax) com cerca de 7 anos de idade. Esta espécie apenas é conhecida para as zonas costeiras Atlânticas dos E.U.A, desde a Carolina do Norte até ás Florida Keys, golfo do México e ao longo da zona sul do mar das Caraíbas. Este foi o primeiro registo desta espécie no Atlântico Este. O processo que levou ao aparecimento deste indivíduo é de todo desconhecido, bem como o facto de não sabermos se estamos perante uma ocorrência ocasional ou perante o estabelecimento de uma nova população viável (apesar deste último parecer pouco provável). No caso do badejo das Caraíbas, não parece provável que a ocorrência tenha resultado de acções antropénicas, mas sim de mecanismos de dispersão natural. Das várias hipóteses possíveis destacam-se duas: 1) o indivíduo poderá ter chegado aos Açores associado a objectos flutuantes (ver Mundo Submerso, Março de 2002, nº 61), nadando por debaixo deles para aí obter protecção de possíveis predadores, à medida que o objecto ia derivando com as correntes. Este processo é conhecido para o cherne (Polyprion americanus), que se reproduz nas zonas costeiras dos E.U.A. e migra, enquanto juvenil, para os Açores associado a objectos flutuantes. Apesar desta hipótese parecer plausível, tais mecanismos de migração nunca foram descritos para o badejo das Caraíbas; 2) o indivíduo poderá ter sido transportado pelas correntes vindas de Oeste ainda em estado larvar ou de ovo. Este mecanismo parece pouco provável devido à grande distância que separa os Açores das zonas costeiras do continente americano, impedindo que as larvas ou ovos de peixe sobrevivam na coluna de água durante tempo suficiente até chegarem às zonas costeiras das ilhas. De qualquer forma, se este foi o mecanismo que levou a tal ocorrência, significa que o indivíduo chegou à região há cerca de 7 anos, tendo aí sobrevivido a novas condições ambientais e sugerindo a potencialidade para se estabelecer uma população viável desta espécies.


Mesmo fotografias de menor qualidade certificam a presença de espécies raras.
Neste caso, Diplodus vulgaris nos Açores.
Foto: J Fontes ImagDOP


Distribuição natural do badejo (Mycteroperca phenax)
e localização da nova ocorrência (na foto) no Faial, Acores.
Mapa e foto: T Morato.


Polyprion americanus por baixo de objecto flutuante.
Foto: F Cardigos ImagDOP

Este pequeno registo serve para salientar a importância e o papel fundamental que todos os utilizadores do meio marinho têm no sentido de o conhecer melhor e explorar de uma forma sustentável os seus recursos. Se lhe passar pela frente um animal que não reconheceu de imediato, tente informar-se do que será. Existem listagens na internet com a distribuição natural das espécies. Se encontrar algum organismo que está no local "errado", entre em contacto com o organismo ligado ao ambiente na sua área. Apenas através de uma grande base de dados que inclua todos estes registos raros compreenderemos a dinâmica natural dos ecossistemas e apenas compreendendo poderemos conservar melhor.

Agradecimentos

Aos Ricardo Serrão Santos, Jorge Fontes e Robert Patzner pelas fotos. A Margarida e Leonor Abecasis pela revisão do texto.

Para Saber Mais:

Bibliografia:

Briggs, J. C. (1995). Global biogeography. Amsterdam, Netherlands: Elsevier Press.

Heemstra, P. C. (1991). A taxonomic revision of the eastern Atlantic groupers (Pisces: Serranidae). Boletim do Museu Municipal do Funchal, 43, 5-71.

Lloris, D., Rucabado, J. & Figueroa, H. (1991). Biogeography of the Macaronesian ichthyofauna. Boletin Museu do Municipal Funchal, 43, 191-241.

Morton, B. & Britton, J. C. (2000). Origins of the Azorean biota: the significance of introduced species, survivors of chance events. Arquipélago - Life and Marine Sciences Supplement, 2(Part A), 29-51.

Sanchez, J.G. 1989. Nomenclatura Portuguesa de Organismos Aquáticos. Publicações avulsas do INIP, 14: 322p.

Santos, R. S., Hawkins, S., Monteiro, L. R., Alves, M. & Isidro, E. J. (1995). Case studies and reviews. Marine research, resources and conservation in the Azores. Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecossystems, 5, 311-354.

Santos, R. S., Porteiro, F. M. & Barreiros, J. P. (1997). Marine fishes of the Azores: annotated checklist and bibliography. Arquipélago - Life and Marine Sciences Supplement, 1, 244 p.

Swearer, S. E., Caselle, J. E., Lea, D. W., & Warner, R. R. (1999) Larval retention and recruitment in a island population of a coral-reef fish. Nature, 402, 799-802.

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer Madeira / Kanaren / Azoren – Niedere Tiere. Vol. 9. Delius Klasing Edition Naglschmid. 247 pp. ISBN: 3-89594-014-3.

Wirtz, P. & H.R. Martins 1993. Notes on some rare and little known marine invertebrates from the Azores, with a discussion of the zoogeography of the region. Arquipélago. Life and Marine Sciences, 11A: 55-63.

Na Internet:

Espécies Marinhas dos Açores - http://www.horta.uac.pt/species/

Fishbase - Página internet com extensa base de dados sobre peixes - http://www.fishbase.org/

Página do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores - http://www.horta.uac.pt/

Seaweed Site - Página sobre algas marinhas da autoria de Michael D. Guiry - http://seaweed.ucg.ie/

Glossário

Alpondra - substantivo feminino, cada uma das pedras dispostas em fila através de um curso de água, por cima das quais se passa a pé enxuto de uma margem para a outra, tradução de termo técnico em inglês Stepping stone proposto por Cardigos e Santos (in press); poldra, pondra; (De al-+lat. *pullìtru-, «poldro»). (adaptado de © 2002 Porto Editora, Lda.)

Afinidade biogeográfica - semelhanças entre conjuntos de espécies de áreas diferentes.

Autóctone - adjectivo e substantivo 2 géneros, nascido na própria terra em que habita; aborígene; indígena (Do gr. autókhthon, «indígena», pelo lat. autochtòne-, «id.») (© 2002 Porto Editora, Lda.)

Biogeografia - substantivo feminino, capítulo da geografia que estuda a distribuição dos seres vivos na Terra e analisa as causas que a determinam; (De bio-+geografia, ou do fr. biogéographie, «id.») (© 2002 Porto Editora, Lda.)

Corrente do Golfo - grande movimento de massas de água do Oceano Atlântico que se deslocam superficialmente desde o Golfo do México em direcção ao Norte da Europa. Esta corrente, dado transportar água do mar com temperaturas elevadas, é responsável pelo clima relativamente ameno que se sente no Norte da Europa Ocidental.

"Eddie" - Termo técnico em inglês que serve para descrever grandes massas de água oceanicas que se movem descrevendo espirais.

Ictiofauna - Conjunto de espécies de peixes que caracterizam uma região ou época. (adaptado de © 2002 Porto Editora, Lda.)

Biografia

Telmo Morato - Licenciou-se em Biologia Marinha e Pescas na Universidade do Algarve e efectuou o Mestrado em Ecologia na Universidade de Coimbra. Realizou as teses de licenciatura e Mestrado no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e, desde então, tem participado em vários projectos de investigação sobre as comunidades de peixes costeiros dos Açores. Fez parte da equipa do Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509) e posteriormente ajudou a estruturar um projecto de investigação sobre o efeito das áreas marinhas protegidas nas comunidades de peixes. Actualmente, encontra-se a realizar o doutoramento na Universidade da British Columbia (Vancouver, Canadá), sobre modelação ecológica, para melhor compreender a dinâmica de ecossistemas marinhos.