Conhecer, Reconhecer e Preservar a Caça Submarina

Por: Frederico Cardigos, Telmo Morato e João Pedro Barreiros

 

A perspectiva do conservacionista terá sempre uma componente crítica em relação à caça submarina. Se a caça for vista como uma actividade desportiva exigente, com as regras estabelecidas respeitadas, uma atitude digna em relação às presas e sem interesses comerciais, então não haverá grande coisa a apontar. Infelizmente, não é isso que se observa no dia-a-dia. Este artigo é primordialmente destinado a essa elite do desporto que entende a caça como uma busca de perfeição na interacção entre o homem e a natureza. Embora, na realidade, seja também dirigido a todos os utilizadores do mar, como comerciantes, pescadores ou simples curiosos, que gostam dele e o respeitam. Os que exercem actividades marginais – com as quais não concordamos – como a caça submarina nocturna ou utilizando escafandro autónomo, pesca com explosivos ou utilizando malhagens inferiores às permitidas por lei, fuga à lota ou desprezo pelo mar, etc. talvez encontrem aqui argumentos suficientes para uma mudança de atitude.

 

Métodos

 

Para realizar este artigo, começámos por questionar os caçadores submarinos sobre quais as presas habituais. Depois fizemos uma análise crítica da captura típica em termos de reprodução, características morfológicas, épocas de defeso e áreas de reprodução e comportamentos. Com este tipo de análise pretendemos que cada caçador saiba perfeitamente o que está a capturar e de que forma o ecossistema, no seu todo, está a perder ou a ser estimulado com a sua atitude. No final demos o artigo a caçadores submarinos para ouvir o seu comentário e aperfeiçoar as nossas indicações.

 

Reprodução

 

Ao contrário das aves e dos mamíferos, o crescimento nos peixes apenas termina com a sua morte. Simultaneamente, os peixes têm um aumento exponencial do potencial reprodutivo com o tamanho. Ou seja, quanto maior fôr a idade de uma fêmea, mais ovos põe. Tendo em conta que a caça submarina, como a pesca em geral, atinge em primeiro lugar os animais de maiores dimensões justifica-se a existência de zonas marinhas protegidas. Isto é verdade porque os animais de maiores dimensões, protegidos nessa área, podem assegurar o continuo repovoamento não apenas dentro das mesmas, mas também das zonas adjacentes.

 

Por outro lado, os animais menores têm também um papel fundamental na população, não só porque os mais velhos terão, mais cedo ou mais tarde, de ser substituídos, mas também porque o seu legado genético é essencial para a vitalidade da população. A capacidade de adaptação de uma população, a longo prazo, depende directamente da sua variedade genética. Ou seja, a “competitividade” de uma população depende directamente das repostas às diferentes solicitações do meio. Num exemplo simplificado, se a temperatura da água subir (a tal “solicitação do meio”) o suficiente para colocar em risco uma população, deverão existir alguns indivíduos (possuidores dos extremos da dita “variedade genética”) com capacidade para resistir a essa diferença térmica.

 

A idade em que os peixes passam a ter capacidade para gerar descendência denomina-se “idade de primeira maturação”. Esta é habitualmente relacionável com o tamanho ou peso. Existem espécies que complicam um pouco este quadro, como as espécies que mudam de sexo. Há espécies que na maturação começam por ser machos ou fêmeas e, após alguns anos, invertem o sexo. Nestes casos é absolutamente necessário deixar os animais crescer até se encontrarem no último estágio de desenvolvimento sexual. O risco, se isso não acontecer, é ficarmos com uma população com um sexo apenas. Há ainda casos mais complexos, em que, por exemplo, o sexo funcional é apenas definido no momento do acasalamento, mas vamos deixar esses caso de parte, pelo menos para já. Em resumo: há tamanhos mínimos e quotas a respeitar para cada espécie que têm como objectivo manter a estrutura da população, ou seja, a sua saúde.

 

Morfologia

 

Falemos então das características morfológicas. Primeiro que tudo a sua importância. Infelizmente, muitas vezes os caçadores submarinos não sabem bem o que estão a capturar. Mesmo quando fizemos o nosso inquérito obtivemos respostas generalistas como “sargos” ou “bodiões” como se fosse apenas uma espécie. Habituais, no caso dos sargos, são duas espécies, no caso dos bodiões são muitas, mas parece que isso causa alguma confusão a caçadores menos experientes. No caso dos sargos a confusão é possível porque uma das espécies é muito mais habitual do que a outra e porque as diferenças são relativamente ténues. Já no caso dos bodiões não há desculpa! As espécies são completamente diferentes e não há qualquer justificação para que o bom caçador confunda um bodião vermelho com um peixe-cão. E porque é que isto é tão importante? É simplesmente porque os tamanhos mínimos e épocas de defeso podem ser completamente diferentes.

Uma questão recorrente é “onde se pode aprender a identificar os organismos marinhos?” A resposta fácil para essa pergunta é o recurso a Guias de Identificação (ver caixa). Há, no entanto, outras formas. Alguns excelentes Biólogos iniciaram a aprendizagem nos mercados de peixe e não se pense que é má ideia. As pessoas que estão a vender o peixe gostam muito de falar e sabem os nomes de todas as espécies. É mesmo uma forma muito razoável de começar a aprender. Outra forma, é assistir, nas zonas do país onde isso é possível, à descarga do peixe nos portos de pesca. Os pescadores sabem muito sobre peixes. São autênticas enciclopédias do mar. Muitas vezes estão demasiado cansados para ser prestáveis, mas, com sorte, são muito úteis no início da aprendizagem.

 

Áreas e épocas de defeso

 

As zonas protegidas já foram amplamente discutidas num artigo anterior (ver Mundo Submerso nº50: 30-36). Mas nunca é demais relembrar que essas áreas, uma vez definidas, passam a funcionar como elementos regeneradores das zonas exploradas, pelo que o seu respeito é essencial. Estas áreas podem também servir, se o seu regulamento o permitir, para que os caçadores estudem a morfologia e o comportamento das suas presas. É mais uma vantagem destas áreas!

 

As épocas de defeso são tradicionalmente instituídas para proteger as espécies no momento da reprodução. Isto por si só não justificaria a atitude, mas se lhe juntarmos o facto de algumas espécies serem particularmente vulneráveis nessa época, já poderemos ter um quadro ligeiramente diferente. Por exemplo, há espécies, como as lagostas, meros ou badejos, que agregam para se reproduzir. Neste período estão muito vulneráveis e agrupados, pelo que a sua captura poderá resultar numa catástrofe para a população dessa área. Sendo caçador, tenha especial cuidado e não considere que encontrar uma agregação deste género é um “jackpot”. Aproveite e partilhe connosco as suas observações, mas não dispare sobre estes animais. Poderá estar a interferir injustamente com uma espécie. Algumas espécies protegem os ovos em “ninhos” no fundo ou no meio de algas durante e após as posturas (sim, os peixes também constroem “ninhos”!). Por muito que o mergulhador seja inapto, estes animais não irão abandonar o seu “ninho” e a sua descendência. Manter-se-ão lá e lutarão para defender a sua prole, sem imaginar que são incapazes de se defender contra um arpão.

 

Tal como os bodiões, o macho da castanheta-azul (na foto)
protege os ovos no ninho até à sua eclosão.

Foto: J Fontes ImagDOP

 

Comportamento

 

O comportamento pode estar relacionado com o acasalamento e reprodução, mas não apenas. Há espécies que são particularmente curiosas e outras em que a curiosidade tem de ser estimulada. As primeiras (como os lírios ou os peixes-porco) são presas fáceis e as segundas são presas apenas ao alcance de um bom caçador submarino. Ou seja, é necessário pensar duas vezes quando se dispara sobre um animal curioso, por duas razões: a primeira é muito discutível, mas “será moralmente aceitável disparar contra um animal que teve a curiosidade de o vir conhecer?” Enfim, é muito discutível e nós não estamos a escrever este artigo para julgar ninguém. O que é indiscutível, e esta é a segunda razão, é que uma presa que tem um comportamento de curiosidade é muito mais susceptível de ser capturado, pelo que deveremos redobrar o cuidado e ter especial atenção em relação aos tamanhos/pesos mínimos de captura. Os “dôdôs” são um bom exemplo de como uma exploração descuidada de uma espécie vulnerável pode conduzir à sua rápida extinção (para saber mais sobre esta espécie consulte: http://www.davidreilly.com/dodo/).

 

 

A caça submarina é praticada pelos autodenominados “maiores amantes do Mar”. Como tal, estes acima de todos, devem dar o exemplo de como deve ser realizada a utilização sustentada do mar. O grande caçador deve tentar caçar menos, caçar melhor e respeitar o ambiente.

 

 

 

(caixa)

Presas

 

Em seguida apresentamos uma lista de presas comuns dos caçadores submarinos. Após o nome comum poderá encontrar o nome científico escrito de acordo com as regras internacionalmente aceites.

Apesar das sugestões apresentadas serem baseadas em trabalhos científicos, elas reflectem apenas a opinião dos autores.

Entre parêntesis colocámos a distribuição da espécie em águas portuguesas (C – Continente, M – Madeira e A – Açores). Os pontos de interrogação significam incertezas na distribuição actual.

O regulamento de caça da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas (FPAS) é amplamente debatido e criticado. Isso não significa que este esteja mal feito. É nossa convicção que as regras estabelecidas pela FPAS são úteis e que devem ser respeitadas por todos os caçadores submarinos, mas pensamos também que alguns detalhes poderão ser aperfeiçoados de forma a precaver ainda mais o ambiente. Em termos gerais parece-nos útil a futura inserção dos nomes científicos no regulamento da FPAS de forma a não criar confusões ou duplas interpretações. Seria interessante reduzir o número de efectivos admitido por cada espécie, neste momento situado nos 12 peixes, de forma a estimular a qualidade da captura e a redução da quantidade.

 

Abrótea, Phycis phycis (C, M, A). Esta espécie pode atingir 65 cm de comprimento (cerca de 4.5kg). Só está pronta para a reprodução aos quatro anos, quando atinge cerca de 540g. Em nossa opinião o peso mínimo válido para provas de caça submarina deveria subir dos actuais 500g para 600g (ficaria com uma margem precaucionária). A título de curiosidade, refira-se que uma abrótea pode viver 15 anos.

A actividade deste peixe concentra-se durante a noite. Isso significa que durante o dia está dentro de pequenas ou grandes grutas a dormitar. Quando disparamos sobre este animal estamos a fazê-lo sobre um animal que está a dormir (visto que a prática da caça é proíbida durante a noite).

 

Anchova, Pomatomus saltator (C, M, A). Este peixe, que pode atingir, imagine-se, 34kg (aos 16 anos de idade) atinge a maturação quando tem 3 anos (cerca de 5.2kg). O peso mínimo, admitido para provas de caça submarina, de 500g é francamente inadequado para esta espécie.

 

Badejo, Mycteroperca rubra (C) Mycteroperca fusca (M, A). Estas espécies, muito semelhantes entre si, estão referidas no Livro Vermelho dos Vertebrados Portugueses. Isto significa que esta espécie não deverá ser capturada por caça submarina. A confusão com o mero é possível. Debaixo de água o mero tem tons mais acastanhados e o badejo mais acinzentado. Por outro lado, o badejo é mais estreito, tem um prognatismo do maxilar inferior mais acentuado e as barbatanas caudais são também diferentes (ver desenhos).

Nas provas de caça o peso mínimo admitido é de 500g. A ser autorizada nas provas de caça submarina, a captura destas espécies deveria ter um período de defeso durante a reprodução (Julho e Agosto), e um peso mínimo de 5kg.

 

Badejo (Mycteroperca fusca)

Desenho: JP Barreiros ImagDOP

 

Bicuda, Sphyraena sphyraena (C) e Sphyraena viridensis (M, A). Há quem denomine estas espécies por “barracudas”. O peso de primeira maturação é de cerca de 850g. Esta espécie não está referida no regulamento de caça da FPAS. O peso mínimo de captura deverá ser de 2kg.

 

Bodião (Família Labridae). Na realidade os bodiões são os peixes da Família Labridae. Nesta incluem-se entre outras o bodião-vermelho (Labrus bergylta), o bodião-verde (Centrolabrus caeruleus) e o peixe-cão (Bodianus scrofa).

 

Bodião-vermelho (Labrus bergylta), bodião-verde (Centrolabrus caeruleus) e peixe-cão (Pseudolepidaplois scrofa)

Desenho:

 

Bodião-vermelho, Labrus bergylta (C, M, A). No Continente também é denominado de “Balão de Sto. António” ou “Margota”. O padrão cromático desta espécie é muito variável. Nos indivíduos do Continente apresenta um ponteado muito evidente, mas este padrão não é tão claro nas populações Açoreanas. Esta espécie tem a sua idade de primeira maturação quando atinge cerca de 550g, logo não deverá ser capturada quando pesar menos do que isso. Sugerimos o aumento do peso mínimo de pesagem do regulamento da FPAS para 600g.

 

Bodião-verde, Centrolabrus trutta (C) e Centrolabrus caeruleus (M, A). Esta espécie atinge a primeira maturação aos 12cm. As espécies da Madeira e a dos Açores só foram descritas recentemente. Esta é uma daquelas espécies que constroi um ninho com pedaços de pequenos detritos que transporta na boca em longas viagens. Não deverá ser considerada uma espécie-alvo.

 

Castanheta, Abudefduf luridus (M, A). Presa de caçadores submarinos muito amadores. Esta é uma daquelas espécies que faz guarda aos seus ninhos, por isso fica susceptível durante a época reprodutora. A época reprodutora varia de acordo com o local e de acordo com a variação da temperatura da água nesse ano, ou seja, é dificilmente previsível. Resumindo, dadas as pequenas dimensões desta espécie e a especial susceptibilidade, é uma espécie que os caçadores submarinos deverão evitar. Não deverá ser considerada uma espécie-alvo.

 

Cavaco, Scylarides latus, crustáceo (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei nos Açores é de 17cm medido entre o olho e a inserção do telson . O período de defeso nos Açores começa em 1 de Maio e termina em 31 de Agosto. O caçador submarino deve, na nossa opinião, considerar a captura de crustáceos como ocasional.

 

Choco, Sepia officinalis (C, M?). Presa habitual dos caçadores mais inexperientes. Este animal, como todos os cefalópodes, morre após a reprodução. Isto significa que não se pode esperar que esteja maturo para poder caça-lo. Para este tipo de espécies apenas se podem estabelecer quotas de captura.

De qualquer forma, esta espécie é muito comum e não serão os caçadores submarinos a colocar a sua existência em perigo. Não nos parece que esta espécie mereça referências de conservação especiais.

 

Corvina, Argyrosomus regius (C). Esta espécie atinge a sua maturidade aos 6 anos, ou seja, quando tem cerca de 5.8kg. Mais uma vez, parece-nos desajustado o peso mínimo do Regulamento de Provas da FPAS (3kg). O tamnho mínimo de captura deveria ser de 6kg. As corvinas podem ter dois metros de comprimento e 80kg de peso.

 

Dourada, Sparus aurata (C, M). Neste caso, parecem-nos apropriados os valores referidos no regulamento de caça da FPAS. O peso na primeira maturação é de cerca de 420g. Esta espécie foi inadvertidamente introduzida na Madeira, através das aquaculturas. Ainda não se sabe a extensão do impacto ambiental desta introdução.

 

Dourado, Coryphaena hippurus (C, M, A). Não se devem capturar exemplares desta espécie com menos de 10kg. Só com este peso esta espécie atinge a maturidade sexual. Algumas descrições indicam que existe algum nível de fidelidade nos casais desta espécie. As implicações que o abate de um exemplar têm no par ainda não são conhecidas.

 

Enxaréu, Pseudocaranx dentex (C, M, A). Esta espécie só atinge a maturidade aos 5kg, logo o valor proposto pela FPAS (500g) deverá ser revisto.

 

Faneca, Trisopterus luscus (C). Atinge o peso de primeira maturação cerca dos 160g, logo o peso referido pelo regulamento de caça da FPAS (400g) é apropriado para esta espécie.

 

Garoupa, Serranus atricauda, presa frequente de todos os caçadores que passam pelos Açores (C, M, A). Tal como o mero, este peixe tem um sistema reprodutor um pouco estranho. No caso das garoupas, uma vez maturas podem reproduzir-se como macho ou fêmea, sendo o seu sexo funcional definido apenas no momento dos rituais de acasalamento. De facto, esta espécie é o que se chama “hermafrodita simultâneo”. A sua maturação é atingida, genericamente, quando pesa 200g. O regulamento da FPAS aceita a sua captura a partir dos 400g o que nos parece um valor precaucionário. Óptimo! No Continente as espécies mais comuns são Serranus scriba e S. cabrilla cujo peso de primeira maturação é 150g, para ambas.

 

Lagosta, Palinurus elephas, crustáceo (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei é de 23cm medido entre o olho e a inserção do telson. O período de defeso nos Açores começa em 1 de Outubro e termina em 31 de Março (embora a partir de 1 de Janeiro seja possível capturar indivíduos não ovados).

 

Lavagante, Homarus gamarus, crustáceo (C, M?). É muito raro esta espécie estar disponível nas áreas em que se pratica caça submarina.

 

Linguado, Solea solea, presa habitual dos caçadores mais inexperientes (C). Não capture exemplares desta espécie com menos de 200g (peso da primeira maturação).

 

Lírio, Seriola spp. (C, M, A). Na realidade integra, pelo menos, duas espécies, uma tem o corpo mais alongado (Seriola dumerili) e a outra tem o corpo mais arredondado (Seriola rivoliana). O peso mínimo de captura do regulamento de caça da FPAS é de 500g. Para a primeira espécie o peso de maturação é de 8kg, enquanto para a segunda o peso de maturação é de 3kg. Neste caso, apesar das semelhanças, torna-se muito importante saber distinguir as espécies.

 

Lírios (Seriola dumerili e S. rivoliana).

Desenhos: JP Barreiros ImagDOP

 

Lula, Loligo spp., invertebrado, frequência de captura casual (C, M, A).

 

Mero, Epinephelus marginatus (C, M, A). A captura desta espécie é interdita na Madeira e nos Açores por caça submarina. Pelo seu comportamento sedentário e grande valor comercial esta é uma das espécies mais vulneráveis. Segundo o regulamento da FPAS, que neste caso é válido apenas para o Continente, o peso mínimo de captura é de 3kg. Este peixe tem um desenvolvimento biológico estranho, embora comum nos peixes e na sua Família (Serranidae). Quando nasce tem um sexo (no caso, fêmea) e com o desenvolvimento muda (torna-se macho). Isto significa que, neste caso, é essencial deixar a espécie crescer, sob o risco de se ter uma população unicamente de fêmeas. A mudança de sexo dá-se quando o peixe tem entre 5 e 7kg, por isso, parece-nos que este valor deveria ser revisto. É nossa convicção que, mantendo o actual valor de um exemplar/dia/pessoa, o peso mínimo de 10kg deveria ser introduzido no regulamento da FPAS.

 

Mero (Epinephelus marginatus)

Desenho: JP Barreiros ImagDOP

 

Moreia, várias espécies (C, M, A). Não há uma espécie única de moreia. Só nos Açores há a Muraena augusti (moreia preta), Muraena helena (moreia pintada), Gymnothorax unicolor (moreão), Enchelycore anatina (víbora). São facilmente distinguíveis, mas em termos reprodutores podemos assumir o comprimento de primeira maturação aos 80cm. Segundo o regulamento de caça da FPAS, o peso mínimo de captura é de 1.5kg. Infelizmente, não foi possível encontrar qualquer trabalho em se fizesse a relação entre o comprimento das moreias e o seu peso de forma a poder comentar o valor da FPAS. De qualquer forma, dado ser uma presa fácil recomendamos a limitação da sua captura apenas a exemplares de grandes dimensões (superiores a 1.5kg) e com uma frequência esporádica.

 

Pargo, Pagrus pagrus (C, M, A). Este peixe pode atingir quase 1m de comprimento. O peso de primeira maturação é de 700g, portanto desajustado dos 500g referidos pela FPAS no seu regulamento de caça submarina.

 

Peixe-galo, Zeus faber (C, M, A). Espécie não referida no regulamento de caça da FPAS. Este animal atinge a maturidade quando possui cerca de 1kg (4 anos), ou seja, 38cm de comprimento. O seu avistamento é muito ocasional o que indicia algum nível de raridade, logo a sua captura deve ser evitada.

 

Polvo, Octopus vulgaris (C, M, A). Espécie com peso mínimo definido por lei de 750g. Tal como o choco e a lula, este cefalópode apenas se reproduz uma vez.

 

Rascasso, Scorpaena spp., presa habitual dos caçadores menos experientes (C, M, A). De facto, este é um grupo de várias espécies de pequenos “peixes-escorpião”. Este conjunto de espécies é bentónico, ou seja, habita junto ao fundo. Para escapar aos predadores e para capturar as suas presas utiliza a técnica do imobilismo e do mimetismo. Isso significa que, uma vez identificada a posição, não há qualquer mérito na sua captura, visto que a estratégia da espécie é mesmo não fugir. Devido ao seu reduzido tamanho, não é muito útil a sua captura e esta deverá ser evitada.

 

Robalo, Dicentrarchus labrax (C). Atinge a maturação cerca dos 550g. O valor do regulamento de caça da FPAS indica 500g como peso mínimo de pesagem. Mais uma vez pensamos que este valor deveria subir para 600g.

 

Rocaz, Scorpaena scrofa, presa pouco habitual (C, M, A). Este é mais conhecido por “peixe-escorpião”, mas, neste caso, é bastante apetecido e alvo de exploração profissional intensa. Esta espécie é bentónica, ou seja, vive junto ao fundo. Para escapar aos predadores e para capturar as suas presas utiliza a técnica do imobilismo e do mimetismo. Isso significa que, uma vez identificada a posição, não há qualquer mérito na sua captura, visto que a estratégia da espécie é mesmo não fugir. No entanto, em termos gastronómicos, é muito compensador a sua captura para alimentação. Se o fizer tenha em atenção que este peixe tem uma armação de espinhos venenosos.

 

Roncador, Dentex dentex (C, M). Peixe que ainda é capturado com dimensões elevadas. A sua idade de primeira maturação é de 6 anos (1.6kg). Admitindo que o regulamento de caça da FPAS o considera um similar do pargo é necessário que o peso mínimo (500g) seja alterado.

 

Ruivo, Trigla lyra, frequência de captura casual e alvo dos caçadores mais inexperientes (C, M?). Este peixe encontra-se maturo quando atinge o peso de 800g. Isso significa que os regulamentos da FPAS (400g) não são adequados para a salvagurada desta espécie e do seu processo reprodutor.

 

Safio, Conger conger (C, M, A). É também denominado de “congro”. O tamanho mínimo autorizado por lei é 58cm (equivalente a cerca de 300g) o que é francamente insuficiente tendo em atenção que o peso de maturação é de 2kg (110cm). O regulamento da FPAS é especialmente precaucionário (5kg), visto que esta espécie tem um nível de sensibilidade muito grande, pois julga-se que se reproduz apenas uma vez em toda a sua vida. Logo uma atitude especialmente precaucionária deve sempre ser adoptada em relação a ela. Pensamos que se devia considerar o aumento do peso mínimo de captura para 10kg (cerca de 1.5m).

 

Salema, Sarpa salpa, presa habitual dos caçadores menos experientes (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei é de 18cm (equivalente a cerca de 130g). O peso de primeira maturação é de 600g, isto é, superior ao previsto no regulamento de caça da FPAS (400g). As salemas, dado o seu fraco sabor, são apenas capturadas em competição. É nossa convicção que, se esta espécie não é capturada fora de competição, não deveria ser considerada como pontuável.

 

Salmonete, Mullus surmuletus, presa habitual dos caçadores mais inexperientes (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei é de 11cm, mas o comprimento de primeira maturação é de 18cm. De qualquer forma, o valor sugerido pela FPAS (400g) parece-nos precaucionário e adequado. É uma presa habitualmente fácil e vulnerável, por isso não deveria ser estimulada a sua captura.

 

Santola, Maja squinado, crustáceo (C, M, A). Não se podem capturar indivíduos com largura do corpo inferior a 12cm e tem um período de defeso, nos Açores, que se inicia em 1 de Outubro e termina a 31 de Março (embora a partir de 1 de Janeiro seja possível capturar indivíduos não ovados).

 

Sargo, Diplodus spp. (C, M, A). O tamanho mínimo autorizado por lei é de 15cm. O género que agrupa os diversos sargos é muito vasto. No entanto, qualquer caçador deverá reconhecer as duas espécies mais comuns: Diplodus sargus e Diplodus vulgaris. O regulamento de caça da FPAS prevê um mínimo de 400g para este grupo de  espécies, mas estas só se tornam maturas quando atingem 550g (D. vulgaris), 400g (D. sargus), 300g (D. Cervinus) e 320g (D. puntazzo). É fácil distinguir, pelo menos estas três espécies: D. vulgaris tem uma lista preta perto do opérculo e outra junto à cauda; D. sargus tem listas pouco conspícuas em todo o corpo, mas com uma mancha especialmente visível no pendúnculo caudal; D. cervinus tem listas bem visíveis em todo o corpo; D. puntazzo tem as maxilas especialmente salientes, em termos de coloração é parecido com o D. sargus. Propomos um peso mínimo de captura de 550g.

 

Serra, Sarda sarda (C, M, A). O peso de primeira maturação é precisamente o valor referido no regulamento de caça da FPAS. Ainda no regulamento da FPAS, referem-se às serras e similares, não se compreende quais serão esses similares, mas admitindo que são todos os tunídeos, haveria mais comentários a fazer. Apenas a título de exemplo, o atum rabilo Thunnus thynnus atinge a sua primeira maturação aos 87kg e encontra-se referido no Livro Vermelho dos Vertebrados.

 

Solha, Bothus podas maderensis, presa comum nos Açores (M, A). Atinge a maturidade sexual aos 220g. Dada a facilidade da sua captura e o baixo valor alimentar, a sua captura deverá ser evitada.

 

Tainha, Família Mugillidae (C, M, A). Não há uma espécie única de tainha. Infelizmente, são diversas espécies, dificilmente identificáveis ao vivo, mesmo por olhos experientes. De qualquer forma, a exploração sustentada deste grupo de espécies não as colocará em perigo. Aliás, a sua magnífica capacidade de habitar águas salobras com algum nível de poluição tem-lhe dado vantagem em relação a outras espécies mais sensíveis. Em termos ecológicos, chama-se a este tipo de espécies “oportunistas”. A espécie Chelon labrosus (uma das tainhas mais comuns) atinge a maturidade quando pesa cerca de 200g. É nossa convicção que o tamanho mínimo de captura deverá ser de 500g.

 

Veja, Sparisoma cretense (M, A). Há observações de comportamentos diferentes deste peixe em zonas exploradas e não exploradas. Daí a expressão “vejas escaldadas” para descrever o comportamento das vejas em zonas muito exploradas. Aos 34cm (cerca de 500g) a veja encontra-se matura, logo não deverá ser capturada antes disso. Esta espécie não é referida no regulamento da FPAS.

 

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Guias de Identificação

 

Debelius, H. Mediterranean and Atlantic Fish Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 305p.

Guia de identificação dos peixes do Mediterrâneo e Atlântico. Está editado em Alemão, Inglês e Espanhol.

 

Debelius, H. 1999. Crustacea of the World. IKAN Unterwasserarchiv. 321p.

Guia de identificação de crustáceos de todo o mundo.

 

Nahke, P. & P. Wirtz 1996. Underwaterguide: Maldives. Edition Naglschmid. 168p.

Guia de identificação dos peixes das Maldivas. Está escrito em Alemão e Inglês.

 

Norman, M. 2000. Cephalopods a World Guide. IKAN Unterwasserarchiv. 320p.

Guia de identificação de cefalópodes (polvos, lulas, potas, etc.) de todo o mundo.

 

Patzner, R. & H. Moosleitner 1995. Underwater guide: Mediterranean sea. Edition Naglschmid. 158p.

Guia de identificação dos peixes do Mar Mediterrâneo. Está escrito em Alemão e Inglês.

 

Saldanha, L. 1995. Fauna Submarina Atlântica. Publicações Europa-América. 364p.

Este guia tem a vantagem de ser abragente, começa nas algas (se bem que muito superficial neste tema) e acaba nos mamíferos marinhos, passando pelos invertebrados e peixes. Outra vantagem é estar escrito em Português.

 

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer: Madeira, Kanaren, Azoren (Invertebrates). Edition Naglschmid. 247p.

Guia de invertebrados muito completo para os Arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores. Tem boas fotografias. Neste guia poderá também aprender alguns detalhes sobre a bio-ecologia de algumas espécies.

 

 

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Agradecimentos

 

Ao Sr. Carlos Franco da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas pelo envio dos regulamentos das provas de caça submarina. Aos colegas e amigos Carla Gomes, Helena Isidro, João Cardigos, Luís Quinta, Luís Quintino, Norberto Serpa, Nuno Gomes, Pedro Afonso, Pedro Freitas Cruz e Rogério Ferraz pelas correcções e sugestões que nos fizeram.

 

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Fontes de Informação

 

 

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Biografias

 

Frederico Cardigos é licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Estagiou no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç). Hoje, está contratado pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores através do Projecto MAROV (MCT-FCT-PDCTM/P/MAR/15249/1999). Colabora activamente com o Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).

 

Telmo Morato. Licenciou-se em Biologia Marinha e Pescas na Universidade do Algarve. Realizou a tese de licenciatura em comportamento alimentar de garoupa (Serranus atricauda) no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. Publicou diversos trabalhos científicos sobre ecologia e biologia de organismos marinhos. Terminou recentemente o mestrado em Ecologia Marinha. Faz parte da equipa do Projecto MARÉ (EU-LIFE-B4-3200/98/509).

 

João Pedro Barreiros. Realizou diversos trabalhos em ictiologia e comportamento animal. É Assistente no Departamento de Ciências Agrárias e colabora regularmente com o Departamento de Oceanografia e Pescas, ambos da Universidade dos Açores. É licenciado em Engenharia Zootécnica, Mestre em Ecologia e Comportamento Animal pela Universidade dos Açores e encontra-se prestes a defender a sua Tese de Doutoramento. O desenho é uma ferramenta de apoio para alguns dos trabalhos cientificos que realiza. Praticou caça submarina de competição entre 1982 e 1990.